Episódios como o da Catedral de Campinas são cada vez mais comuns no mundo inteiro
O que leva um atirador como o de Campinas matar pessoas e tirar a própria vida

Toda vez que nos deparamos com um massacre como o de Campinas, parece que todo mundo se pergunta instantaneamente: o que passa na cabeça de uma pessoa ao praticar uma barbaridade como essa? No Brasil assassinatos em massa não são frequentes. Já no Estados Unidos quase todo dia um homem sai atirando a esmo tentando liquidar a maior quantidade de pessoas possíveis. As explicações são as mais variadas para o comportamento dos criminosos. Em geral são psicopatas e psicóticos. Ou seja, pessoas com graves distúrbios emocionais. E se você achou exagerado ler "quase todo dia" verá no decorrer desse texto que é a mais pura verdade. 

O episódio em Campinas teve um ingrediente a mais de perplexidade (se é possível) o fato de ter acontecido dentro de uma igreja, em um local onde as pessoas normalmente vão em busca de conforto, paz e ajuda divina. 

Outro ponto que fugiu às características que são comuns nos atentados foi o momento de iniciar a matança. Os assassinos normalmente chegam atirando de imediato, talvez para não desistirem do propósito que tem em mente ou com receio de serem descobertos com armas e muita munição. Na catedral campineira foi diferente. 

Primeiro Euler Fernando Grandolpho se acomodou em um dos bancos na parte central do templo e esperou que seus primeiros alvos estivessem próximos. Só depois que três pessoas se sentaram em um banco atrás dele foi que Euler efetuou o primeiro disparo. 

Já o suicídio ao final da ação é comum. O atirador sabe que tem boa chance de ser alvejado pelo primeiro policial que se aproximar (como aconteceu na catedral) e, dificilmente, nesse caso vai escapar com vida. Outra decisão para o autoextermínio naquele momento é a vontade de acabar com a própria vida também.  


Nos Estados Unidos e no mundo inteiro é igual

 

Quando você leu no começo do texto que nos Estados Unidos quase diariamente tem um ensandecido atirando para todos os lados e não acreditou, aqui vão os números. 

Depois da tragédia em Las Vegas, quando um atirador disparou da janela de um hotel contra uma multidão que assistia a um show, a BBC divulgou o seguinte levantamento: do dia 1º de janeiro de 2017, até o dia do atentando, 2 de outubro, os americanos tinham registrado ocorrências com 273 atiradores disparando contra grupos de pessoas. Isso em 275 dias. 

Essa estatística foi feita por uma associação chamada Gun Violence Archive (Arquivo da Violência Armada). A GVA acompanha os ataques de fúria que são catalogados no banco de dados do governo e das forças de segurança dos EUA desde 2013. 

Para se chegar a esses números a Gun Violence Archive adotou como critério episódios em que quatro pessoas ou mais são vítimas de um atirador ou grupos de ataques. Os americanos chamam esse tipo de atentado de "tiroteio em massa" (mass shooting). 

Em 2015, o Congresso dos Estados Unidos também encomendou um levantamento sobre o número de registros levando em conta atentados com quatro pessoas ou mais, incluindo o atirador. Até o dia 2 de dezembro, quando se fechou o balanço, foram registrados 355 tiroteios em massa durante 336 dias. 

Os números são mesmo de estarrecer. Outro dado chocante é a contagem de massacres em que resultaram na morte de 10 pessoas ou mais. Desde 1982, foram anotados 65 tiroteios. 

Entre os mais sangrentos está justamente o de Las Vegas. Stephen Paddock matou 58 pessoas e deixou cerca de 500 feridos. Para realizar essa carnificina, Stephen se armou até os dentes com mais de 20 armas, algumas automáticas com cartuchos de munição capazes de armazenar centenas de balas em uma só carga, e do quarto do hotel disparou rajadas em direção à multidão. Por fim, ele se matou. 

"Apesar de não ter sido uma surpresa, por conta da frequência em todo o país [de ataques], é muito difícil antecipar um tiroteio em massa como o ocorrido em Vegas", explicou à BBC Brasil Mark Bryant, diretor-executivo da GVA.

Em 2012, um soldado americano em serviço matou dezesseis pessoas no Afeganistão e deixou cinco feridos. O nome dele nunca foi revelado. O militar partiu da base em Panjwai rumo a Kandahar. Ao chegar à cidade invadiu três casas e abriu fogo contra os moradores. O fato aconteceu às 3h da madrugada. 

Segundo as explicações das autoridades americanas, ele teria sofrido um colapso nervoso. Entre os mortos haviam mulheres e crianças. 

Outro atentado que deixou um rastro absurdo de mortos e feridos aconteceu na Noruega em 2011. Um militante de extrema direita, chamado Anders Behring Breivik, provocou uma explosão em edifícios governamentais da capital, Oslo. Oito pedestres morreram.

Poucas horas depois ele entrou em um acampamento na ilha de Utoya, situada no lago Tyrifjorden, e executou mais setenta e sete pessoas. Sessenta e nove eram integrantes do Partido Trabalhista Norueguês. Anders tinha na época 32 anos e disse que desde os 23 anos preparava o atentado. 

A matança em Campinas ainda vai ficar por um bom tempo na lembrança de todos nós, mas não foi o maior atentado anotado no Brasil. 

Também em 2011, um ex-aluno da Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, bairro do Rio de Janeiro, entrou atirando na unidade. Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, matou doze alunos com idade entre 13 e 16 anos. Outros treze ficaram feridos. Ao ver a presença de policiais o atirador cometeu suicido. 

Parentes e ex-colegas de Wellington dizem que ele sofreu bullying na mesma escola quando era mais novo. Nos últimos anos de vida o atirador pesquisou muito sobre atentados terroristas e grupos religiosos fundamentalistas.

 

O que leva a ser um atirador 

 

As causas de motivação de um atirador são várias. Nos Estados Unidos os estudiosos atribuem em boa parte à adoração dos americanos por armas. Esse fenômeno vem desde a época em que o país era uma colônia inglesa. 

Para se defenderem de invasões de nativos ou de estrangeiros os primeiros colonos enviados pela coroa britânica eram obrigados por lei a ter armas. 

A Revolução que tornou o país independente também foi conquistada com muitas batalhas com as treze colônias fundadoras contendo insurreições. 

Para reprimir a violência, a Constituição dos Estados Unidos, assinada em 1787, concedeu ao Congresso o poder de formar milícias para executar as leis da União e abortar rebeliões. Grupos que se opunham as ideias federalistas temiam o grande poder dado ao Congresso e ao governo federal. 

Em 1791, eles conseguiram promulgar dez emendas à Constituição, que ficaram conhecidas mais tarde como a Declaração dos Direitos dos Cidadãos (The Bill of Rights). A Segunda Emenda garante aos cidadãos o direito de portar armas e formar milícias para se proteger.

Os Estados Unidos são o único país no mundo que tem essa garantia na Constituição. 

Hoje não existe nenhuma população civil mais armada do que a americana. A estimativa é de que existam perto de 300 milhões de armas em posse de cidadãos civis e militares. 

O que torna esse número ainda mais assustador é saber que essas armas pertencem entre 70 e 80 milhões de americanos. Cerca de 75% deles possuem duas ou mais armas. 


Quem são esses assassinos 

 

O que leva esses homens a executarem milhares de pessoas sem nenhum motivo aparente é uma explicação que a sociedade está sempre em busca. No episódio de Campinas há uma inquietação a mais. Se a intenção do atirador era de se matar, por que atirar friamente em pessoas que talvez ele nunca tenha visto antes? 

O psicólogo Jairo Stacanelli Barros, especialista em educação e mestre em Psicologia, explica que o problema está na natureza dos seres humanos. "Todos nós temos os nossos buracos, as nossas incompreensões, mas a gente não parte para o choque, para algo mais ofensivo, porque sabe que o outro vai sofrer", afirma Jairo. 

Ainda segundo Stacanelli, existem dois tipos que apresentam distúrbios emocionais com fortes traços de violência. "O psicopata é um sujeito que não sente nada pelo outro, como cuidado, empatia e nem faz projeção de dor. Para satisfazer seus desejos, como o sexual, muitas vezes ele mata sem remorso. Mas, não necessariamente se mata". 

O segundo perfil é ainda mais complexo, mais necessitado de estudos e intervenções. "O psicótico, o clássico 'louco' - alguns pouquíssimos com delírios violentos, de grandeza, esse sim se mata, após executar seu plano macabro - fruto da desconexão de seu pensamento com a realidade. Fruto da fabricação fantasiosa de um plano com ética e moral próprias, típica do pensamento desconectado da realidade, que caracteriza sua doença. Muitas vezes o faz por fazer parte (o suicídio) de seu delírio, de sua paranoia", esclarece Jairo.

Os afetados pelos dois tipos de transtornos mentais costumam dar pistas que ajudam a prever o que eles estão planejando. "É preciso monitorar essas pessoas que se manifestam quase sempre em rede social. O cidadão que atentou contra o candidato Jair Bolsonaro já estava publicando pensamentos que não são conectados com a realidade. Ele estava postando coisas que eram indevidas", exemplifica Jairo. 

O psicólogo aponta ainda três medidas que precisam ser adotadas com urgência no país para se evitar que outras mortes em massa aconteçam: serviço de segurança pública monitorando pessoas com tendências a ataques, a criação de mais leitos psiquiátricos em áreas de atendimento de saúde e, por último, o controle de armas. 

"Não se tem monitoramento de segurança e não se tem tratamento de pessoas com sofrimento mental. Hoje, se um sujeito surta, a família é responsável por ele, enquanto as armas entram do Paraguai amplamente. A gente está falando de uma bomba de nitroglicerina pronta para explodir", profetiza preocupado Stacanelli. 

O massacre na catedral de Campinas não foi o único assassinato brutal da terça-feira. Na França, em Estrasburgo, três pessoas morreram e treze ficaram feridas - oito gravemente - depois que um atirador abriu fogo em um mercado de Natal. 

A imprensa francesa disse que se trata de um homem de 29 anos, nascido em Estrasburgo, e que já era conhecido dos serviços de inteligência pelo seu perfil violento. 

 
 * no começo da tarde de quarta-feira, dia 12, a prefeitura de Campinas comunicou a morte da quinta vítima, um semhor de 84 anos, de nome Heleno Severo Alves.
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

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