Sem a ajuda desses animais seria muito mais difícil a espinhosa missão dos bombeiros de encontrar os restos mortais
Os cães farejadores que ajudaram a localizar os corpos em Brumadinho

Que o cão "é o melhor amigo do homem" pode ser uma máxima que nem todos concordam. Agora, que tem cachorro que realiza sozinho a tarefa de 20 seres humanos a gente tá descobrindo de uma forma dolorosa. As operações de buscas em Brumadinho resultaram no resgate de vários corpos graças, em boa parte, a capacidade desses bichinhos de farejar. 

Pelos dados oficiais ao final da terça-feira, dia 12 de fevereiro, contabilizavam 165 mortos. A dificuldade na localização de mais vítimas daqui para frente está nas montanhas de lama que se formaram em alguns pontos. 

A parte superficial dos rejeitos que ficaram espalhados no trajeto até o rio Paraopeba já foi toda vasculhada. Mas existem locais em que o material se acumulou a uma altura de 30 metros, o que equivale a um prédio de 10 andares. 

O trabalho daqui para frente será de escavações e lento por causa da instabilidade no terreno. Por isso, o jeito é recorrer cada vez mais aos cães farejadores, os maiores aliados dos bombeiros nesse momento. 

De acordo com os números divulgados pelas autoridades, 155 corpos ainda estão sendo procurados depois de 20 dias do rompimento da barragem de Córrego do Feijão. Sempre com o auxílio dos farejadores. 

"O trabalho dos cães ainda está sendo de percorrer algumas áreas mais secas, porque nas muito molhadas eles têm muita dificuldade de deslocamento", detalhou o Comandante do Canil Pelotão de Busca e Salvamento com Cães do Corpo de Bombeiros, tenente Lucas Costa. 

"São utilizados também cães próximos as máquinas. Quando a guarnição sente qualquer odor diferente são solicitadas as presenças de um cão e de um condutor para confirmar se existe ou não um corpo no local", explicou o militar. 

 

Os cães farejadores que ajudaram a localizar os corpos em Brumadinho

 

Como é feita a busca

 

Primeiro os bombeiros mapearam a área e o deslocamento de estruturas como o refeitório. Agora eles intensificam os esforços em prováveis lugares onde possam existir uma concentração maior de corpos. 

Ao delimitar um determinado ponto, as equipes passam a revirar o ambiente. É nessa hora que entra o auxílio dos animais. 

Basicamente, os bombeiros usam duas formas para que os cães façam as buscas. Uma delas é dando uma voz de comando. Ao ouvir a palavra "dead" (morto) pronunciada pelo seu condutor, o cachorro inicia a procura de odor característico de cadáver. 

No segundo tipo as equipes fazem buracos fundos na lama utilizando bastões. Os espaços abertos são chamados de "cone de odor". Por esses orifícios os animais também tentam detectar algum cheiro que os seres humanos não conseguem perceber. 

Caso sintam algo, os cães estão treinados a latir como uma forma de aviso. Se tiver a felicidade de encontrar alguém com vida, o cachorro também dá o alerta porque foi adestrado para identificar ambos os cheiros.

"O cão é treinado para emitir uma sinalização indicando que encontrou algo. Ele emite a sinalização latindo. O condutor vai lá e verifica o local ou envia uma equipe de intervenção para fazer uma escavação", afirma o tenente Lucas. 

 

Treinados desde pequeno 

 

Um bom cão farejador começa a ser preparado para a carreira militar logo após o desmame, com alguns dias de vida. 

O desenvolvimento das habilidades para esse tipo de atividade leva em geral dois anos. Faz parte de o treinamento definir cedo qual será a atividade específica a ser exigida dos bichos. Eles são preparados para identificar drogas, explosivos ou pessoas. 

Durante as operações de resgate os cachorros dão sinais que devem ser observados com atenção. O cão precisa estar com a boca fechada e puxando o ar pelo nariz. Quando passa a respirar com a boca aberta é chegada a hora de descansar. 

Segundo a norma adotada por vários condutores, em média, para cada dez minutos de farejamento são necessários vinte de descanso. Os bombeiros que trabalham com esse tipo de cão dizem que os mais treinados podem "valer" por 20 militares na tarefa de buscas. 

Nas áreas em que a lama está mais firme, um cachorro consegue realizar a varredura de cinco mil metros quadrados em 20 minutos. 

Em Brumadinho alguns lugares só conseguiram ser acessados pelos cães. E se tem um latido pode ter certeza que algo foi localizado. Os bombeiros explicam que os bichos nunca latem em falso.

O Comandante do Canil revelou ainda que até aqui os animais foram responsáveis pela descoberta de 29 corpos. "Somente na terça-feira eles encontraram mais dois", disse Lucas. 

"Eles tiveram bastante utilidade na localização dos corpos que estavam mais superficiais e camuflados no meio da lama", afirmou o tenente. 

 

Que cães são esses

 

Na área da barragem o Corpo de Bombeiros está utilizando raças diferentes no árduo trabalho. "As que estão sendo empregadas são labrador, pastor alemão, pastor belga de malinois e border collies, que são as mais propensas para essas atividades", segundo Lucas. "São cães que tem facilidade em deslocamento em mata, em lama, no meio de um escombro e de galhadas", completou o militar. 

Ainda de acordo com o responsável pelo canil dos bombeiros, a corporação recebeu o reforço de animais que vieram de outros seis estados e da capital federal. No total, 29 cães já participaram das operações. 

Além de seis cachorros de Minas Gerais, foram utilizados em Brumadinho mais três do Espírito Santos e do Rio de Janeiro, quatro de São Paulo, Goiás, Distrito Federal e Sergipe e um do Paraná . 

Cada raça tem ainda uma característica própria. O labrador é considerado o de melhor faro, mas se esgota mais rápido. Normalmente com 20 minutos precisa descansar. 

O pastor alemão é bem mais resistente. Trabalha até 40 minutos sem interrupção. 

Border collies e o pastor belga costumam ser definidos com mais sensíveis e inteligentes, porque aprendem mais facilmente nos treinamentos. 

"Através do olfato, que é o sentido mais aguçado do cão, é que a gente treina ele para detectar o odor do cadáver. Os cachorros têm cerca de 40 vezes mais células olfativas do que o ser humano. Devido essa habilidade do cão, desse sentido, eles encontraram os corpos. Eles ajudaram bastante", conta orgulhoso Lucas. 

Os animais também recebem um tratamento especial. Quando saem da lama eles passam por um procedimento de limpeza rigoroso, já que os rejeitos da barragem contém material perigoso para a saúde de bichos e humanos.

O descanso dos cães é outra preocupação que os bombeiros precisam ter. Os profissionais que cuidam dos cachorros admitem que eles ficam estressados e que o desgaste é grande para os animais. 

"A gente inclusive reveza os cães disponíveis. No momento a gente só está com 18 cães. Alguns de outros estados já foram desmobilizados", finaliza o zeloso tenente Lucas, sempre preocupado com a saúde desses imprescindíveis parceiros. 

Uma pena que esses animais precisam se aposentar cedo. Com oito anos de serviço efetivo ou dez de idade eles saem da ativa. 

 

Os cães farejadores que ajudaram a localizar os corpos em Brumadinho

 

* as fotos que ilustram a matéria foram cedidas pelo Corpo de Bombeiros de Minas Gerais 

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poliany Machado

poliany Machado

O Cão, e´a melhor definição para anjo.
Melhores que muitos humanos.
Parabéns a esses heróis
★★★★★DIA 13.02.19 15h55RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Poliany, obrigado por compartilhar sua opinião. Abraço.

★★★★★DIA 13.02.19 17h08RESPONDER
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Maria Clara Lara

Maria Clara Lara

Fantástico! Merecem um tratamento muito bom, fazem excelente trabalho.
★★★★★DIA 13.02.19 13h01RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Maria Clara, obrigado por enviar a sua mensagem. Esses "bichinhos"são mesmo muito especiais. Abraço. 

★★★★★DIA 13.02.19 13h22RESPONDER
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