Leila, Carlos Viana, Bolsonaro e Márcio França atropelaram favoritos e conseguiram milhões de votos desbancando mitos da política
Os erros e as surpresas. Entenda as boas lições do primeiro turno

Contabilizados os votos do primeiro turno, o país se surpreendeu com muitos resultados. As lições das urnas merecem ser analisadas sem paixão para se entender o que aconteceu com os chamados fenômenos. 

Vamos começar pelos novos senadores. 

Em Minas Gerais o jornalista Carlos Viana e em Brasília a ex-jogadora de vôlei Leila se arriscaram logo na primeira eleição a uma cadeira no senado Federal. E os dois receberam uma votação estupenda. A escolha por eles mostra um forte desejo do eleitor por mudanças. Viana (PHS) e Leila (PSB) são pessoas que se destacaram em diferentes profissões. Carlos tem uma carreira bem sucedida no jornalismo. Leila foi uma grande jogadora e musa no vôlei. Não foi à toa que eles foram escolhidos pelos seus partidos para essa missão.

Carlos e Leila só não podem ser considerados pioneiros porque existem vários colegas de profissão que romperam pela política igualmente com sucesso. Entre os jornalistas o gaúcho Antônio Britto é um case. Saltou de repórter de TV a Governador do Rio Grande do Sul. Antes passou por Brasília onde foi deputado. No esporte o caso mais recente de um atleta que virou senador é o baixinho Romário. Um recado claro que fica nesses dois exemplos é que o leitor se enfastiou de políticos tradicionais e está buscando algo novo. 

Vale ressaltar que o furacão Leila tirou de cena um dos mais tradicionais atores do palco político, o senador Cristovam Buarque, que não conseguiu se reeleger.

A segunda reflexão é sobre as campanhas nas tvs e rádios. Pelo menos no primeiro turno esses espaços não fizeram nenhuma diferença. Basta olhar o fenômeno Bolsonaro (PSL) e o desastre Alckmin (PSDB). Enquanto o candidato mais votado para a presidência teve ao todo apenas 10 minutos, isso mesmo que você leu, minguados 10 minutos nas cinco semanas, o tucano pode expor suas ideias em excepcionais 6 horas de programas.

Como não tinha a chance de fazer uma apresentação melhor de suas propostas, Bolsonaro recorreu às redes sociais. Esse foi o principal canal de mensagem com seus eleitores, principalmente depois do atentando em Juiz de Fora. Um detalhe significativo a se observar é que os posts eram poucos, nada de várias tuitadas no mesmo dia. Funcionou bem. Com a rede social, Jair e sua equipe atingiam um público mais jovem no primeiro momento. As postagens depois eram divulgadas nos noticiários e alcançavam muito mais gente. Importante dizer que Bolsonaro foi o candidato que ganhou mais seguidores no Twitter. Em apenas um dia ele passou a ter 120 mil pessoas aderindo a sua conta, enquanto Haddad ganhou seis mil. 

Essa é uma situação que vai ser cada vez mais frequente. As redes sociais estão "invadindo" um espaço que antes era primazia das TVs e outras mídias. Uma nova realidade se desenhou na vida dos brasileiros e parece irreversível. Resta entender bem essa alternativa para não errar na dose. É bom lembrar que muita água também mata a planta.

 

Ibope e datafolha


A desmistificação das pesquisas dos institutos que estudam as tendências dos eleitores é outro ponto a ser analisado. A opinião pública vai ficar muito mais desconfiada da precisão desses levantamentos daqui para frente. Ibope e Datafolha saíram do primeiro turno com aquele jeito de que "quebrei a cara". Mas a culpa é só dos institutos? 

Acho que a mídia tem uma parcela de responsabilidade muito grande nessa história. Vamos lá para você acompanhar a linha de raciocínio.

Toda vez que uma pesquisa é elaborada, além do percentual de votos de cada candidato, fazem parte desse conteúdo o índice de eleitores indecisos, votos brancos e nulos. Todo mundo já viu os apresentadores de TV falando no "finalzinho" das divulgações sobre essa galera. É aí que está a sacada. Se somarmos a turma que não optou por nenhum dos candidatos (indecisos, brancos e nulos) vamos ver que esse é um percentual extremamente relevante. Em algumas pesquisas supera a preferência pelo primeiro colocado. Provavelmente é essa turma que está "bagunçando" a moral das pesquisas em comparação com o resultado final das urnas. 

Aí você deve estar perguntando onde entra a responsabilidade da mídia. A "culpa" da imprensa é em não dar a devida ênfase ao grupo. As divulgações deveriam colocar os percentuais de indecisos, brancos e nulos na frente do percentual dos candidatos que tinham índices menores. Entendeu?

Mas por que a imprensa não chama tanta atenção para o eleitorado que não se posiciona claramente? É porque isso esvaziaria o impacto das pesquisas na hora da divulgação. 

Você já pensou em ver o William Bonner dizendo que a mais recente pesquisa do Ibope continua apresentando o índice de votos de indecisos, em branco e nulos maior do que o primeiro colocado? Afirmar que a pesquisa ainda não tem muita relevância porque o eleitor não está decidido? 

Temos que lembrar que a contratação de cada pesquisa custa caro e é um produto que precisa ser bem explorado pelos veículos de comunicação para justificar o seu investimento. 

A isso se soma a curiosidade do público. Quando se anuncia o resultado de um novo levantamento o que queremos saber é quem está na frente e qual a posição do meu candidato. Nesse ponto a mídia trabalha bem, mas deixa a brecha para que os indecisos aprontem lá na frente.

Um bom exemplo é o que aconteceu em São Paulo. Três candidatos ao governo brigaram feio nas urnas, enquanto nas pesquisas a disputa parecia polarizada entre João Dória (PMDB) e Paulo Skaf (MDB). Marcio França (PSB) vinha em terceiro sem parecer muito relevante. Veja o resultado do levantamento no sábado, dia 6 de outubro, véspera da eleição. 

Os erros e as surpresas. Entenda as boas lições do primeiro turno

Agora volte na pesquisa e observe o percentual de brancos, nulos, não sabe/não respondeu. Some tudo e repare o resultado.

Isso mesmo que você anotou: 20%. Muito mais do que o próprio Márcio França tinha (14%).

Quando terminou a totalização dos votos Márcio França (21,53%) acabou em segundo lugar. A virada do candidato do PSB foi graças ao eleitor que não vinha se posicionando. 

Os institutos ganharam muito dinheiro esse ano. Nunca os veículos de comunicação contrataram tantas pesquisas. Mas essa conta da falta de credibilidade os institutos vão pagar sozinhos.

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