A cada dia aumenta o número de senhores e senhoras que, sem ter o que comer e onde morar, fazem de tudo para serem presos
Os idosos japoneses que roubam para viverem na cadeia

 

A incidência de crimes cometidos por idosos com mais de 65 anos não para de crescer no Japão. A onda começou há cerca de 20 anos. Os homens, na maioria, forçam as prisões para terem onde viver sem passar fome. As mulheres se tornaram criminosas por medo também da solidão. Assim, o país vive um momento atípico, vendo sua população carcerária crescer em quantidade e média de idade dos infratores da lei.

Os centros de detenção estão cheios de casos como o do senhor Toshio Takata, de 69 anos. Ele está em uma prisão considerada de reabilitação em Hiroshima.

A unidade é dedicada à reinserção social de ex-detentos. Toshio explica que infringiu a lei porque não tinha onde morar.

"Cheguei à idade de me aposentar e fiquei sem dinheiro. Me ocorreu, então, que talvez eu pudesse morar de graça se vivesse na cadeia", diz ele.

"Roubei uma bicicleta e fui até a delegacia e disse: Olha, eu roubei isso".

Entre as mulheres, os nomes não são revelados, mas os casos se parecem muito.

Uma idosa, de 81 anos, foi condenada a dois anos e meio depois de ser presa quatro vezes por furto.

Ela afirmou ao site da Bloomberg Businessweek que não aguentava mais cuidar do marido doente. Sem ânimo para voltar para casa, a vovó resolveu furtar até ser presa.

"Minha vida é mais fácil na prisão. Posso ser eu mesma e respirar, pelo menos temporariamente. Meu filho me diz que estou doente e deveria ser internada em uma instituição para quem tem problemas mentais. Mas não me acho doente. Acho que minha ansiedade me fez começar a furtar" conta a japonesa.

Os enredos se repetem com várias histórias que parecem inacreditáveis. Um dos motivos para essa situação absurda está no fato do Japão ter a população mais velha do mundo, com 27,3% dos habitantes com 65 anos ou mais.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo governo de Tóquio, mais da metade dos idosos pegos furtando vivem sozinhos. Outro dado assustador é saber que 40% deles não têm família ou raramente conversam com seus parentes.

Muitos alegam que se sentem "invisíveis" em casa. Eles argumentam que não conversam com ninguém e se consideram como um peso para os familiares.

Entre as mulheres idosas o fator financeiro parece pesar ainda mais. Quase a metade das japoneses com 65 anos ou mais, além de viverem sozinhas estão em situação de pobreza.

Assim, os crimes viraram uma espécie de sobrevida para os idosos. O roubo da bicicleta cometido pelo senhor Toshio foi a primeira infração na ficha dele quando já tinha 62 anos.

A Corte Japonesa não aceitou nenhum atenuante e condenou Takata a um ano de prisão porque lá os pequenos furtos também são julgados com rigor.

O tempo na cadeia acabou passando rápido para Toshio. Quando foi liberado ele não teve dúvida. Em uma praça pública o velho ameaçou de forma proposital algumas mulheres com uma faca.

"Fui a um parque e apenas as ameacei. Eu não pretendia fazer nenhum mal. Só mostrei a faca para elas, esperando que uma delas chamasse a polícia. Uma delas fez isso".

Quem vê o senhor Toshio não acredita que ele seja capaz de fazer uma bobagem dessas. De fisionomia baixa, magro e sempre descontraído, ele não lembra em nada a figura de um ameaçador da sociedade.

Entre indas e vindas, Toshio acabou passando metade dos últimos oito anos atrás das grades e ainda continuou recebendo a aposentadoria.

"Não é que eu goste, mas posso ficar lá de graça", diz ele. "E quando saio, economizei algum dinheiro. Então, não é tão doloroso."

Toshio é desses personagens que "parecem" viver sozinhos no mundo. Ele alega que perdeu contato com os dois irmãos mais velhos, que não atendem às suas ligações, com as ex-mulheres, de quem se divorciou e até com os três filhos.

Entre as mulheres a estratégia de furtos em mercados e supermercados é a mais recorrente para provocar os flagrantes.

 

Em cada dez velhinhas condenadas, nove foram por furto

 

"Meu marido morreu no ano passado. Não temos filhos e eu fiquei sozinha. Fui ao mercado comprar verduras e vi um pacote de carne. Eu fiquei com vontade, mas achei que pesaria no meu orçamento. Por isso, furtei", contou outra detenta à Bloomberg Businessweek.

Uma senhorinha de 80 anos foi pega três vezes "carregando" alimentos. A condenação dela chegou a um ano e cinco meses de prisão. Sem constrangimento, a vovó conta que se sente muito bem atrás das grades.

"A prisão é um oásis para mim. É um lugar para relaxar e me sentir confortável. Não tenho liberdade aqui, mas também não tenho com o que me preocupar. Tenho muitas pessoas para conversar. Eles me dão uma alimentação nutritiva três vezes por dia".

Todos esses casos levam a constatação de uma triste tendência na criminalidade japonesa.

Em um país que tem reconhecidamente uma sociedade respeitadora das leis, um número cada vez maior de crimes é cometido por pessoas com mais de 65 anos.

Em 1997, cerca de uma em cada vinte condenações foram de indivíduos nesta faixa etária. Duas décadas depois, a estatística agora é de mais de um em cinco presos.

Muitos desses infratores idosos são reincidentes. Das 2,5 mil pessoas com mais de 65 anos condenadas em 2016, mais de um terço acumulava mais de cinco condenações anteriores.

"Eu não conseguia conviver com meu marido. Não tinha onde morar, tampouco lugar para ficar. Foi minha única escolha: roubar", revela outra senhora.

A situação inusitada levou alguns órgãos a estudar a motivação e a solução para esse time de crime. De acordo com australiano Michael Newman, demógrafo do centro de pesquisa Custom Products, é muito difícil viver com a "ínfima" aposentadoria básica concedida pelo governo no Japão.

Em 2016, ele publicou um artigo depois de fazer vários cálculos e chegou a seguinte conclusão: apenas os gastos com aluguel, alimentação e assistência médica já são suficientes para deixar os beneficiários endividados se não tiverem outra fonte de renda.

"Os aposentados não querem ser um fardo para os filhos, e sentem que, se não conseguirem sobreviver com a aposentadoria do Estado, a única maneira de não serem um fardo é indo para a prisão", explica Michael.

O problema é agravado com a crise financeira que atingiu a família inteira, principalmente em pequenos centros.

Antigamente, os filhos cuidavam dos pais, mas a falta de oportunidades econômicas levou os jovens a se mudarem, deixando a família para trás.

Newman chama a atenção para outro problema ainda mais grave, o suicídio também está se tornando mais comum entre os idosos. Segundo o pesquisador, é um jeito do japonês de entender como "seu dever de se retirar".

O diretor do With Hiroshima, o centro de reabilitação onde Toshio Takata cumpre pena, atribui as mudanças de comportamento nas famílias japonesas para a onda de criminalidade entre os idosos.

"O relacionamento entre as pessoas mudou. As pessoas se isolaram mais. Eles não se encaixam nesta sociedade. Não conseguem aguentar a solidão", diz Kanichi.

Muitos idosos que cometem crimes, o fazem na meia idade. Normalmente “são pessoas que perderam a esposa ou os filhos e simplesmente não conseguem lidar com isso... Geralmente as pessoas não cometem crimes se têm alguém que cuide delas e dê apoio”, completa Hiroshima.

A teoria é prontamente aceita pelo senhor Toshio Takata: “se eles [parentes] estivessem por perto para me apoiar, eu não teria feito isso."

Com o crescimento da população carcerária o Governo foi obrigado a contratar mais guardas prisionais dos dois sexos. Os custos com tratamentos médicos para presos também aumentou.

As celas e corredores ainda precisaram passar por reformas e ganharam corrimãos e banheiros especiais para idosos.

"Nós orçamos um projeto para construção de um complexo de lar de idosos onde as pessoas pagariam metade da aposentadoria, mas receberiam alimentação, cuidados médicos, e assim por diante, além de poderem se divertir no karaokê com outros residentes e ter uma certa dose de liberdade. Custaria muito menos do que os gastos do governo no momento", diz Michael Newman.

Outra solução seria rever as rigorosas leis japonesas. Newman acha que os tribunais japoneses aplicarem penas de prisão para pequenos furtos "é um pouco bizarra, em termos de a punição ser condizente com o crime".

"O roubo de um sanduíche de 200 ienes (cerca de R$ 6) pode levar a um custo de 8,4 milhões de ienes (aproximadamente R$ 282 mil) para processar e aplicar uma pena de dois anos", escreveu Newman em seu relatório de 2016.

Com as mulheres o quadro é bem parecido. Os levantamentos mostram que uma em cada cinco presas nas cadeias japonesas está na terceira idade.

O número de pessoas nessa faixa de idade que vive sem ninguém é impressionante. Os últimos cálculos apontam mais de 6 milhões de senhoras.

Nas cadeias os cuidados com elas também precisaram ser revistos. Os gastos com custos médicos subiram em torno de 80%.

As autoridades também se viram obrigadas a contratar funcionárias especializadas para cuidar das presas mais velhas que precisam de ajuda para tomar banho e ir ao banheiro. Ou seja, algumas celas mais se parecem com asilos.

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