Basta Neymar Júnior se meter em alguma encrenca para o patriarca da família aparecer logo tentando proteger seu rebento. Mas nem sempre as atitudes do pai Neymar são bem compreendidas
Pai atrapalha ou ajuda filhos esportistas?

Ele está sempre por perto. É só o nome do famoso filho ficar em evidência, por causa de alguma situação polêmica, para o senhor Neymar entrar em cena como um raio. Mas afinal, que filho não gostaria de contar com uma segurança dessas?

A resposta parece mais do que óbvia. Desde o momento em que nasce, o bebê já busca o colo da mãe para continuar sendo protegido, agora, do lado de fora da barriga. O pai é uma extensão dessa necessidade. A figura masculina da casa, normalmente, é a que ensina as crianças a se defenderem das principais ameaças.

O senhor Neymar da Silva Santos parece seguir com grande afinco essa regra de comportamento. Mas querer ser um super protetor não é necessariamente tradução da postura correta. Agindo assim, ele também assume riscos ao cometer excessos.

Em várias oportunidades em que Neymar se meteu em alguma confusão, o chefão do clã apareceu com defesa irrestrita da "honra" do filho. Na Copa da Rússia, por exemplo, o paizão partiu firme para cima do locutor Galvão Bueno, crítico do "cai cai" do jogador nos jogos.

Desta vez, quem forçou novamente o pai Neymar a entrar em campo atende pelo nome de Najila. A garota que acusa o craque de estupro, fez ressurgir a figura mais marcante do entorno da estrela do futebol.

Agindo com astúcia, o senhor Neymar tratou logo de contratar uma advogada que desse credibilidade a versão da inocência do filho. Doutora Maíra Fernandes é conhecida por trabalhos de defesa dos direitos humanos e das mulheres.

Ao colocar seu staff para se reunir com o primeiro advogado de Najila, o velho Neymar ainda teria jogado duro, se negando a fazer qualquer tipo de acordo, principalmente envolvendo grana. O passo seguinte foi peitar novamente a Globo, entregando de bandeja a cabeça do repórter Mauro Naves, insinuando que o jornalista ajudou a intermediar um encontro entre as partes. O estrago foi grande. Naves está afastado das atividades e os primeiros defensores da garota deram no pé.

"Pediram um 'cala-boca' para a menina, as palavras foram essas. O contato foi através de um amigo. Me mandou uma mensagem falando do caso e depois recebi a mensagem do advogado pedindo um encontro. Eu não estava, mandei dois advogados e uma testemunha. Mesmo assim ele tentou a extorsão. Disse que era dinheiro, falou do tamanho da imagem do Neymar. Falamos que não aceitaríamos isso", explicou em entrevista ao programa Aqui na Band, na segunda-feira da semana passada (03/06).

Até aqui, quase todos os movimentos do pai Neymar, nesse episódio, mereceram elogios. Nem a entrada no vestiário da seleção em Brasília, depois que o filho se machucou no amistoso contra o Catar, teve reprovação por parte do técnico Tite. O único deslize em público do pai e empresário foi ter tentado desqualificar a denúncia de violência sexual por outra igualmente reprovável: "Prefiro crime de internet do que de estupro", alardeou sem receio.

O que velho Neymar não consegue esconder, por mais que agora tente se mostrar um estrategista, são os erros que já cometeu na orientação do filho. Desde a primeira polêmica, ainda no Santos, quando a revelação do clube afrontou o técnico Dorival Júnior e o assistente Ivan Izzo, em uma partida diante do Atlético-GO, pelo Campeonato Brasileiro, o "garoto" sempre apareceu como um mártir. Os gritos de rebeldia em campo contra o treinador e a agressão no vestiário ao auxiliar (jogou um copo de Gatorade no rosto de Ivan) não só foram perdoados pela diretoria do clube santista, graças a um árduo empenho do "empresário", como custaram os cargos da comissão técnica. Na semana seguinte todos foram colocados na rua.

O talentoso jogador seguiu mundo afora com seus caprichos, se atirando nos gramados com suas encenações, revidando xingamentos de torcedores com socos (não se esqueça do que ele fez com Dorival na Vila Belmiro, e nem por isso apanhou na cara) e agora sendo acusado de violência sexual.

Ainda na entrevista ao programa Aqui na Band, o pai Neymar reforçou, outra vez, a ideia de que o mundo conspira contra seu menino. "O que meu filho precisa aprender é que vão colocar uma casca de banana todo dia para ele, agora ele vai ter que escolher melhor as suas amizades. Eu vou ter que participar da vida pessoal dele, as pessoas em torno dele vão ter que se preocupar mais, vamos ter de ser mais seletivos", declarou. "Hoje ele precisa ser blindado, para que ele entenda o que se tornou. O Neymar se acha uma pessoa normal, ele quer ser livre, mas isso tem um custo muito alto para ele", completou o pai.

É claro que o mundo está diante de uma pedra preciosa, de um jogador prodígio, muito acima da média. Discutir a qualidade técnica de Neymar é como querer provar que o céu não é azul. Poucos no planeta tem a mesma refinada condição técnica que o camisa 10 da seleção. Mas daí, querer corroborar com a teoria da constante vitimização é demais.

Se desde as primeiras atitudes condenáveis do jogador se tivesse mostrado o caminho sem o protecionismo exagerado, talvez hoje Neymar não errasse tanto e merecesse o benefício da dúvida de olhos fechados.

As "cascas de banana" do mundo não são jogadas apenas para os famosos e ricaços. Desde cedo é possível se evitar os tombos quando os pais preparam seus filhos para a dura realidade da vida, e não para se julgarem acima do bem e do mal.

Com 27 anos, Neymar Júnior já deixou há tempos de ser apenas um menino. Que ele é o centro das atenções por onde passa também é inegável. A soma das duas circunstâncias é o bastante para que ele entenda o papel que ocupa na sociedade. Os defensores do jogador, que insistem no argumento de que ele tem direito de fazer o que quer, e que todos os gestos de Neymar ganham proporções desmedidas, não estão fazendo nenhum bem ao "parceiro". O craque precisa de apoio, sim, mas de palavras e apontamentos que o façam enxergar os limites de todos os seres humanos.

O mais bizarro nessa história é constatar que, vira e mexe, o feitiço apronta contra o feiticeiro. O jogador, que gosta de teatralizar as entradas que sofre em campo, com caretas cinematográficas de dor, agora tem que se defender usando o mesmo argumento de seus críticos: tudo não passou de um jogo de cena. As imagens do vídeo de Najila, mostradas ate aqui, são claras, não houve nenhuma falta grave. Foi tudo forçação de barra.


Anthony Hamilton, um pai que saiu da pista

 

O excesso de zelo e defesa cega do filho já aconteceu também na Fórmula 1. A história do pentacampeão mundial Lewis Hamilton é uma das mais comoventes que o mundo do automobilismo já viu nas últimas décadas.

A família dele morava na ilha caribenha de Granada. Na metade da década de 50, o avô, Davidson Hamilton, se mudou para o Reino Unido em busca de uma vida melhor. O filho Anthony nasceu em 1963. O neto Lewis em 1985.

Nada foi fácil para nenhum deles. O senhor Anthony chegou a ter três trabalhos simultâneos para poder criar o filho. Em um pequeno apartamento em Stevenage, ao norte de Londres, Lewis dormia em um sofá-cama na sala.

Antes de assumir o volante de uma das principais equipes da Fórmula 1, o garoto precisou ajudar em casa, ganhando pequenos salários em restaurantes recolhendo pratos.

Os tempos de escassez continuaram até Hamilton se tornar um piloto contratado da McLaren. Mas a vida sem fartura nunca tirou da dupla a obstinação por carros e corridas. Sempre incentivado pelo pai, que também era seu mecânico no período de kart, o menino foi se tornando um gênio das pistas.

Quando a carreira do jovem Hamilton decolou, Anthony passou a ser o empresário do filho. Tudo era decidido pela cabeça do pai, como os contratos e as escolhas para a carreira de Lewis.

A ascensão sobre o jovem piloto era tão grande que Anthony determinava até os horários que seu pupilo podia aproveitar os luxos da nova vida. Na primeira temporada na F1, em 2007, Hamilton quase se tornou campeão, perdeu o título por apenas um ponto para o finlandês Kimi Räikkönen. Quando alguém perguntava como seria a agenda de Hamilton, o pai respondia assim: "Não dá para fazer festa quando se está correndo. Nada de fumar, nada de beber, nada de mulheres, só trabalho. Se você quer ir para festas e topar com mulheres, aí é melhor escolher outro emprego".

As interferências na vida do filho caminharam para um desfecho inesperado. Em 2010, quando já era campeão do mundo, Hamilton anunciou que estava rompendo a parceria com o pai. Dali para frente, Lewis não teria mais empresário. Entre as alegações, o piloto reclamava das comissões que o senhor Anthony exigia nos contratos e o excesso de interferência em sua vida pessoal.

O esporte levou um susto enorme, afinal, como poderia uma relação tão estreita se desmanchar da noite para o dia?

"Chegou um ponto em que eu falei: 'Pai, eu só quero que você seja meu pai'. Isso foi incrivelmente difícil para ele aceitar e também foi difícil de dizer. Foi algo difícil naquele momento. Isso colocou entre nós um espaço como o Grand Canyon", contou o piloto em um documentário do programa de TV norte-americano 60 Minutes.

O pai do piloto também falou no filme. Anthony admitiu que a sua relação com Hamilton ficou ruim quando era seu empresário, mas quis deixar claro que ele foi fundamental para o sucesso do piloto nas pistas.

"Desejava tanto que ele fosse bem-sucedido, que isso me levou a ser mais empresário que pai. Mas se eu tivesse sido mais pai, ele provavelmente não teria sido tão bem-sucedido", disse.

Quem imagina que longe da vigilância familiar Hamilton se perderia com uma agitada vida social se enganou. Nos anos seguintes, mais leve e menos pressionado, ele ganhou nada menos do que mais 4 títulos mundiais. Anthony ainda agenciou alguns pilotos. Hoje, pai e filho convivem muito bem.

Nove anos depois, quando é perguntado sobre o assunto, Anthony costuma responder assim sobre a importância do afastamento entre eles. "Eu não conseguia entender. 'O que você quer dizer falando que não precisa de mim?', questionava. Foi muito difícil para mim. Mas foi provavelmente a melhor coisa, eu acho, porque ele não é mais um garoto e não será mais um garoto. Ele já era campeão do mundo de Fórmula 1", resume o pai de Hamilton.

Pentacampeão da mais importante categoria do automobilismo mundial, Lewis mostra que amadureceu sozinho, entendendo o papel dele no esporte. Com responsabilidade, ele cresceu. No meio automobilístico, muito se fala que Hamilton é o melhor piloto de todos os tempos.

Os exemplos citados aqui não devem construir nenhuma teoria definitiva sobre a relação pai e filho no esporte e na vida. Claro que muitas coisas que aconteceram na convivência familiar em ambos os casos nunca vieram a público, e nem carecia. O que parece claro é que o apoio dos pais pode ajudar muito, desde que o paternalismo não fale mais alto do que a razão.

 

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