O comentário foi feito pelo pontífice durante um voo para o continente africano
Papa Francisco disse que é uma honra ser atacado pelos americanos

As viagens do papa ao exterior são realizadas em aviões fretados. Não é apenas por uma questão de luxo ou excesso de segurança. A comitiva do Vaticano é grande, sem contar os jornalistas que acompanham a delegação.

Em algumas peregrinações o grupo de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas chega a setenta pessoas. Todos seguem a bordo com a sua santidade.

Normalmente, uma hora após a decolagem em Roma, o Papa Francisco deixa a primeira classe para ir conversar com os jornalistas. Esse momento é composto por uma oração e agradecimento aos profissionais da imprensa pelo trabalho que têm realizado sobre a igreja. Na sequência acontece uma entrevista.

O pontífice tem a fama de ser bem cordial no tratamento com as pessoas e generoso nas respostas. Foi em uma passagem como essa que na quarta-feira, durante a viagem para Maputo, capital de Moçambique, o santo padre começou a responder às perguntas dos jornalistas.

Mas dessa vez, Francisco pegou todo mundo de surpresa. O homem que sempre usou um discurso conciliador, parecia amargo ao ser provocado pelo jornalista Nicholas Senèze, que cobre o Vaticano para o jornal católico francês La Croix.

Acompanhante assíduo da comitiva papal, Senèze escreveu um livro sobre como os americanos enxergam o reinado de Francisco à frente da maior igreja do mundo. A publicação acabou de ser lançada. Ao ser presenteado com um exemplar pelo próprio autor, sua santidade foi perguntada pelo francês como recebia as críticas que partem dos Estados Unidos. A resposta foi bem seca: "É uma honra se os americanos me atacarem".

A frase foi dita de forma espontânea. O papa falou que ainda não leu o livro porque seus assessores não conseguiram encontrá-lo, mas insinuou que ouviu a seu respeito nos jornais italianos.

Segundo o relato dos sites franceses Le Monde e La Croix, na sequência Francisco entregou o livro a um ajudante e acrescentou sorrindo: "É uma bomba!"

 

O livro

 

A obra de Senèze, que tem o título "How America Wants to Change the Pope" (Como a América Quer Mudar o Papa, em tradução livre), descreve a forte oposição que a santidade sofre da direita conservadora americana. As críticas se referem as posições do pontífice em temas como imigração, meio ambiente, China, capitalismo, pena de morte e divórcio.

De acordo com Senèze, existe uma rede de analistas conservadores, agentes políticos, teólogos e membros do clero que repudiam Francisco. Para disseminar suas críticas eles usam fundações e meios noticiosos católicos bem financiados.

Alguns opositores chegam até mesmo a acusar o santo padre de heresia. Irritados pela crítica virulenta e cotidiana que Francisco faz ao liberalismo econômico, esses religiosos americanos, considerados importantes financiadores do Vaticano, estariam ensaiando um novo "golpe de Estado".

A ideia deles é influenciar na escolha do próximo bispo de Roma, depois que o grupo falhou no ano passado ao tentar provocar a renúncia do papa. Na primeira tentativa, os opositores a Jorge Maria Bergoglio (o seu nome de batismo) tentaram envolver o pontífice no escândalo dos casos de pedofilia na igreja.

Segundo Senèze, estes ricos americanos ultraconservadores batizaram a operação de "The Red Hat Report", numa referência ao barrete vermelho que os cardeais recebem das mãos do Papa quando são elevados a esta função.

Depois de uma reunião em setembro de 2018, o grupo começou a trabalhar para a escolha de um nome que pudesse ser escolhido no próximo conclave. O cardeal precisa ter a visão do mundo que exclui um padre como Francisco, que passa o tempo a denegrir "o deus do dinheiro" e o liberalismo desenfreado.

Os sacerdotes americanos não querem outro papa que conteste as políticas dos estados ocidentais em relação aos imigrantes, e que seja gentil com aqueles que representam uma distorção à moral católica (homossexuais, mulheres que abortam, casais de uniões de fato, divorciados, recasados, etc.).

Na visão dos ultraconservadores, o escolhido deve ter boa aparência e que seja capaz de restaurar o que eles entendem ser a ordem católica de sempre, mas que foi profanada por Francisco.

Ao entregar o livro ao Papa, Senèze disse que sua intenção ao escrevê-lo foi mostrar os problemas enfrentados pelo líder da igreja católica nos EUA, e como Francisco respondeu com "armas espirituais".

 

Porta-voz

 

Preocupado com a repercussão e, principalmente, com a interpretação que as palavras de Francisco poderiam ter, o porta-voz do Vaticano, Matteo Bruni, procurou os jornalistas momentos depois.

Matteo disse que Francisco recebe bem as críticas.

"O Papa falava em um contexto informal no qual quis dizer que sempre considera críticas uma honra, particularmente quando vêm de pensadores renomados, neste caso, aqueles de uma nação importante", disse Bruni.

 

Críticos

 

Desde que foi eleito papa em março de 2013, Francisco nunca foi uma unanimidade na igreja católica. A ala conservadora, tanto dentro do Vaticano quanto entre acadêmicos, rejeita o que considera um afastamento da doutrina no pontificado de Bergoglio.

Esse setor é também contra as reformas.

Entre os mais ferozes críticos americanos da sua santidade estão o cardeal Raymond Burke, que foi afastado de seu cargo na Suprema Corte do Vaticano, e Carlo Maria Viganò.

Em 2016, com outros três cardeais, Burke acusou Francisco, em uma carta conhecida como "A Dubia", de semear confusão sobre questões morais importantes.

No ano passado, em uma conferência em Roma que discutiu os "limites da autoridade papal", Burke foi o principal orador de um grupo que se referiu ao pontífice como precursor da vinda do anticristo e do fim do mundo.

O ex-núncio apostólico de Washington é outro ferrenho adversário de Francisco. Também em 2018, Carlo Maria Viganò acusou o papa através de uma carta com onze páginas de ter acobertado crimes sexuais.

O documento, que não oferecia provas, foi publicado por sites religiosos e contestava a falta de reação do Vaticano as sucessivas revelações. Os abusos contra crianças teriam sido cometidos durante décadas por membros do clero em vários países.

Entre os citados estava o ex-arcebispo Theodore McCarrick, que liderou a arquidiocese de Washington de 2001 a 2006. Acusado de ter assediado seminaristas adultos e abusado de um menino durante muito tempo, em julho do ano passado Theodore renunciou ao posto de cardeal, mas garantiu que era inocente.

Viganò alega que membros do Vaticano sabiam da conduta imprópria de McCarrick há anos. Mesmo assim, Francisco teria permitido que o cardeal ajudasse na escolha de bispos americanos.

O documento afirmou ainda que pelo menos 300 padres teriam abusado de mais de mil crianças ao longo de 70 anos, mas os líderes da Igreja acobertaram os crimes.

No final, Viganò pediu a renúncia do papa.

 

A viagem

 

A jornada do papa pela África, que vai durar sete dias, inclui três países. Além de Moçambique, Francisco vai passar também por Madagascar e Ilhas Maurício.


 

 

 

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Tarcisio Nascimento

Tarcisio Nascimento

Sua Santidade e odiado pelos conservadores que não aceitam principalmente o modo de vida simples escolhido e determinado pelo papa a todos os membraos do clero. Deu exemplos ao dispensar trono de ouro sapatos e anel . Tambem não morar no castelo, escolhendo uma residencia mais simples e sempre estar com o povo por ser do povo e representar o povo. amigo dos perseguidos dos pobres dos negros defensor das mulheres marginalizadas e sempre atento aos excluídos. Em todo o mundo também no Brasil é grande o numero daqueles que se dizem católicos detestarem o Papa Francisco, o primeiro latino americano a ocupar o trono de Pedro.
★★★★★DIA 06.09.19 14h22RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Tarcísio, muito obrigado por contribuir com o blog. Palavras serenas e pensamento que merece reflexão. Grande abraço.

★★★★★DIA 06.09.19 14h43RESPONDER
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