A pista mais admirada pelos corredores de automobilismo é também a mais traiçoeira do mundo

Se você perguntar aos pilotos da Fórmula 1 qual é o circuito que eles consideram o mais fantástico do calendário de provas, a chance de todos responderem "Spa-Francorchamps" é bem provável. Para Ayrton Senna era a pista mais desafiadora por causa dos trechos de subidas, descidas, pontos de alta velocidade e curvas que exigem muito do competidor.

O traçado que encanta quem gosta de competições de automóveis e de motovelocidade foi criado em 1921, mas hoje está bem diferente. Antigamente partes das estradas da província de Liège, nos arredores dos municípios de Spa, Stavelot e Malmedy faziam parte do circuito. Dos quase 15 quilômetros de extensão da pista original, agora se corre em menos da metade.

Outra característica de Spa-Francorchamps é o desafio do clima. As chuvas são comuns na região, mas por causa da floresta Ardennes uma parte do asfalto molha bastante e outras não.

Ao longo dos anos, o autódromo foi se modernizando, principalmente por questões de segurança. A última grande reforma aconteceu no início da década de 80, quando foi encurtado para 7.004 km, com 20 curvas em seu desenho. Spa-Francorchamps diminuiu de tamanho, mas não nas suas emoções.

 

A Fórmula 1 e as mortes

 

Quando a principal categoria do automobilismo passou a ser disputada em 1950, o circuito belga já fez parte do campeonato. Durante duas décadas a Fórmula 1 sempre esteve em Spa. Mas no início dos anos 70, a categoria passou a usar outras pistas alegando falta de segurança.

Uma batida envolvendo o escocês Jackie Stewart foi decisiva para a categoria máxima do automobilismo se recusar a correr no circuito. Aconteceu em 1966, debaixo de muita chuva.

No perigoso trecho do "S" de Masta, Stewart virou o carro e ficou de cabeça para baixo. Apesar de o piloto não ter se machucado, a BRM teve um vazamento de gasolina. Quem salvou Jackie foram o inglês Graham Hill e o norte-americano Bob Bondurant.

"Ao sair da pista, como não havia guard rail, bati num poste e capotei. E lá fiquei, dentro do carro, de rodas para o ar, por uns 20 minutos. Pode parecer incrível, mas não havia comissários ali", recorda o escocês.

Depois do acidente, Stewart liderou um movimento reivindicando mais segurança em todos os autódromos. Particularmente, Spa passou a ser condenado pela ausência de barreiras de proteção em todos os pontos. Quando um piloto saia da pista quase sempre sofria um acidente grave.

De 1972 à 1982, as provas na Bélgica foram realizadas em Nivelles e Zolder. Francorchamps voltou a receber as corridas de F1 em 1983. Nos finais de semana em que os principais pilotos do automobilismo mundial estão por lá também se realizam etapas da Fórmula 2, como estava acontecendo agora. Normalmente as jovens promessas correm duas vezes, uma no sábado e outra no domingo.

A fatalidade com o francês Anthoine Hubert aconteceu na segunda volta da primeira corrida, válida pela 17ª etapa do mundial de Fórmula 2.

Ele se envolveu em um grave acidente com outros quatro pilotos no trecho mais perigoso de Spa, entre as curvas Eau Rouge/Raidillon.

O também francês Giuliano Alesi perdeu o controle do carro e tocou em Hubert. Anthoine saiu da pista, bateu em uma barreira de pneus e retornou para o traçado. Nesse momento ele foi atingido violentamente pelo carro do americano Juan Manuel Correa.

 

Piloto que morreu na Fórmula 2 foi o 48º a perder a vida no circuito da Bélgica

 

Os dois pilotos foram levados para um hospital de Liège, mas o francês não resistiu aos ferimentos e morreu poucas horas depois.

A morte registrada nesse sábado soma-se a uma tenebrosa estatística de Spa-Francorchamps. Até agora 47 competidores tinham perdido a vida na Bélgica.

O último tinha sido outro francês, Sébastien Clouzeau, em uma corrida de carros antigos de Fórmula 3. O acidente fatal aconteceu no mesmo trecho das curvas Eau Rouge/Raidillon, no dia 16 de junho de 2013.

No dia mais fatídico em Spa, dois pilotos da Fórmula 1 morreram na mesma corrida em 1960, em acidentes diferentes.

Primeiro Chris Bristow saiu da pista e acabou decapitado por uma barreira. Já Alan Stacey foi atingido no rosto por um pássaro e ficou desacordado. Sem controlar o carro, ele subiu em uma elevação, atravessou uma vegetação e caiu em um descampado.

O alemão Stefan Bellof, considerado uma das grandes promessas da F1, foi outra vítima em Francorchamps. No dia 1º de setembro de 1985, durante uma corrida de protótipos, Bellof tentou ultrapassar Jacky Ickx na curva Eau Rouge. Os dois carros se tocaram e o Porsche do alemão bateu de frente no guard rail, que ficava muito próximo à pista.

A motovelocidade também já presenciou quatro mortes em Spa. A do britânico David Whitworth, em 1950; do italiano Roberto Colombo, em 1957; do francês Christian Ravel, em 1971; e britânico Kevin Wrettom, em 1984.

Entre os competidores brasileiros, quem sofreu o acidente mais grave na Bélgica foi Luciano Burti. Em 2001, correndo pela escuderia Prost, na quarta volta Burti tentou ultrapassar Eddie Irvine ao se aproximarem da curva Blanchimont. O piloto da Jaguar espremeu Luciano na direção da grama quando os carros se tocaram.

Os dois saíram da pista em alta velocidade em direção a área de escape. Burti bateu de frente em uma barreira de pneus. O brasileiro ficou desacordado. Encerrava ali a trajetória dele na Fórmula 1.

Assistindo às imagens do acidente de Anthoine Hubert, Luciano reforçou o perigo de se correr em Francorchamps. "Spa é um circuito antigo, fantástico para pilotar e para quem assiste, mas é perigoso, não tem jeito. O grande problema lá é a falta da área de escape. E não tem como mudar, por uma questão de relevo e espaço", ponderou o comentarista.

 

O fim de uma carreira promissora

 

Anthoine Hubert tinha apenas 22 anos. O francês fazia parte da academia de pilotos da Renault. Ele era considerado uma das boas expectativas do automobilismo para as próximas temporadas.

Hubert foi o campeão da GP3 em 2018, e já havia vencido duas provas neste ano na F2, em Monte Carlo e Paul Ricard. Ele estava em oitavo lugar no campeonato com 77 pontos.

Nascido em Lyon, começou a carreira no automobilismo pelo kart quanto tinha 12 anos.

 

Piloto que morreu na Fórmula 2 foi o 48º a perder a vida no circuito da Bélgica

 

Em um post em rede social, o inglês Lewis Hamilton lamentou a fatalidade com o companheiro de automobilismo.

"Isso é devastador. Que Deus guarde sua alma, Anthoine. Minhas preces e pensamentos estão com sua família hoje".

 

Piloto que morreu na Fórmula 2 foi o 48º a perder a vida no circuito da Bélgica

 

 

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