Apesar de ser liderado por uma personalidade influente do país, o movimento tem dividido opiniões
Por que as mulheres da Coreia pararam de usar sutiã em protesto

Tudo começou como uma forma de mostrar a defesa pelo fim de antigas regras de comportamento. Quem tomou a frente foi a atriz e cantora sul-coreana Sulli. A jovem tem milhões de seguidores no Instagram e publicou uma foto sem sutiã na rede social.

 

O protesto das mulheres da Coreia que pararam de usar sutiã

 

O post teve grande repercussão e mais de seis mil comentários. Sulli passou a defender o pensamento de que usar ou não sutiã é uma questão de "liberdade individual". Muitos que aprovaram a ideia começaram a divulgar a hashtag #NoBra, que traduzindo quer dizer "sem sutiã".

Mas a campanha informal também encontrou forte resistência, tanto em homens quanto em mulheres. Os críticos da famosa acham que ela está apenas querendo "chamar atenção" ao ser deliberadamente provocadora.

"Entendo que usar sutiã é uma escolha pessoal, mas ela sempre tira fotos de si mesma usando camisetas apertadas para destacar os seios. Ela não precisa fazer isso", escreveu um usuário no Instagram, conforme divulgou a BBC.

"Não culpamos você por não usar sutiã. Estamos dizendo que você deve esconder seu mamilo", escreveu outro seguidor.

"Que vergonha. Você iria à igreja assim? Você iria encontrar com o marido da sua irmã ou sogro assim?", completou outro.

Isso foi em abril, e o assunto não morreu. Em julho, mais uma cantora famosa na Coreia do Sul foi fotografada no aeroporto de Seul quando voltava de um show em Hong Kong usando uma camiseta branca sem sutiã por baixo. As fotos de Hwasa logo correram pela internet, e a fogueira dos conservadores ardeu novamente.

 

O protesto das mulheres da Coreia que pararam de usar sutiãHwasa na chegada a Seul

 

Dois dias depois ela postou um vídeo do show, onde se apresentou sem usar a peça.

Parece que foi o estímulo final para o movimento #NoBra convencer também muitas mulheres que passam longe da fama, que alegam cansaço por tanta opressão.

Mas não está sendo muito fácil seguir com a campanha. Algumas sul-coreanas alegam que estão enfrentando um dilema. Apesar de defenderem a abolição do sutiã, elas dizem que não se sentem confiantes o suficiente para sair na rua sem a peça do vestuário.

A insegurança é justificada pelo medo de atrair olhares depravadores e desrespeitosos dos homens.

A modelo Park I-seul, de 24 anos, fez um vídeo documentando a ausência de sutiã por três dias em Seul. O conteúdo teve 26 mil visualizações. Ela conta que algumas de suas seguidoras estão usando bralettes (uma lingerie que não possui nenhum tipo de sustentação - bojo ou o arame) como um "meio termo".

Outras mulheres optaram por usar adesivos nos mamilos em vez de sutiã.

 

Manifestações contra a fragilidade

 

O movimento #NoBra reacendeu a discussão sobre preconceitos e abusos da sexualidade na Coreia do Sul. Há tempos as mulheres vêm protestando contra a cultura do patriarcado, a violência sexual e o crescimento dos chamados "crimes das câmeras escondidas".

Em 2018, o país teve que conviver com a ascensão do movimento Escape the Corset (liberte-se do espartilho, em tradução livre).

As mulheres que participaram do protesto rasparam os cabelos e passaram a se expor sem maquiagem. As imagens delas eram postadas nas redes sociais como um ato de rebeldia.

O slogan Escape the Corset foi inspirado em uma vontade de romper com os padrões de beleza. As participantes alegam que precisam passar horas na frente do espelho se maquiando com cosméticos.

Nos últimos anos, a Coreia tem convivido ainda com diversos escândalos de imagens gravadas sem consentimento, e que expõe momentos de privacidade das pessoas. Os "crimes das câmeras escondidas" já constrangeram muita gente de todos os sexos.

Os banheiros de locais públicos são até hoje os preferidos de quem pratica o delito. Quartos de hotéis, provadores de lojas e vestiário de clubes e academias também são usados para conseguir os flagrantes.

Com microcâmeras quase imperceptíveis camufladas, um grupo conseguiu milhares de imagens. Os equipamentos com lentes de um milímetro foram instalados em quartos de trinta hotéis de dez cidades da Coreia.

Os responsáveis pelo esquema criaram ainda um site que oferecia aos usuários assistir transmissões ao vivo do que estava acontecendo nos quartos, segundo a agência sul-coreana Yonhap.

Cerca de mil e seiscentos hóspedes foram filmados. De acordo com a polícia, os envolvidos no crime conseguiram assinantes e chegaram a vender 803 vídeos. O servidor do site ficava hospedado em outro país. A quadrilha está presa e respondendo a processos. Se forem condenados podem pegar 10 anos de cadeia e ainda terão que pagar uma multa que pode chegar a 100 mil dólares.

Em 2017, foram registrados mais de seis mil casos de "crimes das câmeras escondidas". Cerca de cinco mil e quatrocentas pessoas foram detidas pela prática, mas menos de 2% acabaram presas.

A população achou muito pouco, e em 2018 foi às ruas pedir o fim dos abusos. A capital Seul se tornou palco de uma série de protestos com manifestantes exigindo que o governo endurecesse as penas contra a pornografia ilegal. Em uma grande mobilização, a maior na história recente do país, as mulheres usaram como slogan a frase "Minha vida não é sua pornografia".

As organizadoras do protesto disseram que as coreanas vivem com medo de serem gravadas secretamente, sem o seu consentimento. A maioria delas é de adolescentes ou de mulheres com pouco mais de 20 anos. Elas são os maiores alvos dos criminosos.

"Aqueles homens que filmam esses vídeos, aqueles que os enviam, aqueles que os assistem, todos devem ser severamente punidos!", eram os cantos ouvidos nas manifestações.

No início de 2019, Soranet Song, cofundadora de um dos maiores sites de pornografia da Coreia do Sul, foi condenada a quatro anos de prisão por um tribunal em Seul.

Soranet foi acusada de publicar milhares de vídeos ilegais, muitos filmados com câmeras escondidas instaladas em banheiros e provadores de lojas. Até gravações feitas por ex-parceiros e enviadas por vingança também foram parar na plataforma.

 

Feministas queimam sutiã

 

Não é de hoje que mulheres organizam protestos contra o uso do sutiã. No concurso de beleza Miss América, em 1968, as manifestantes da época jogaram várias peças na lata do lixo. Assim como elas explicavam que o acessório oprimia simbolicamente, o gesto também foi apenas uma representação.

Os porta-seios jamais foram parar em uma fogueira, mas a expressão "queima de sutiã" se tornou uma marca do movimento de libertação das mulheres.

Há dois meses, as ruas na cidade de Lausanne, na Suíça, foram tomadas por mais mulheres que pediam igualdade de salário com os homens e o fim do assédio e da violência sexual. Elas marcharam a partir da catedral e depois fizeram uma fogueira, alimentando as labaredas com gravatas e sutiãs.

Todo ano, no dia 13 de outubro, é comemorado o No Bra Day (dia sem sutiã). A data tem como objetivo aumentar a conscientização sobre o câncer de mama em todo o mundo.

No ano passado, mulheres nas Filipinas aproveitaram a ocasião para pedir maior igualdade de gênero.

Para a jornalista Vanessa Almeda, entrevistada pela BBC, o No Bra Day "faz valer a feminilidade e a valorização de quem somos como mulheres".

"O sutiã simboliza como as mulheres estão sendo mantidas em cativeiro", afirmou Vanessa.

 

 

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