O caso de Rio das Ostras não é uma exceção. A covardia contra o professor Thiago apenas engrossou uma das mais abomináveis estatísticas do país

As imagens do professor de Rio das Ostras sendo ameaçado em sala de aula viralizaram na internet e escancaram um absurdo problema de segurança no Brasil. Esse não é um "atentando" isolado à Educação. Todos os dias centenas de professores enfrentam ameaças e as situações mais humilhantes no exercício de uma profissão.

A presença de baderneiros que não respeitam a instituição de ensino em que se matricularam se multiplica vertiginosamente nas salas de aula. Não é preciso ir até o famigerado Rio de Janeiro, que tem diariamente sua imagem desconstruída pela violência e roubalheira no setor público, para se deparar com algo semelhante.

Segundo uma pesquisa feita em 2015 pelo Sindicato dos Professores do Estado de São Paulo (Apeoesp), 44% dos docentes do estado declararam já ter sofrido algum tipo de agressão.

O desrespeito aos mestres inclui desde agressão verbal, bullying e vandalismo à agressão física. Basta você acessar a rede de vídeos do YouTube para se deparar vergonhosamente com vários casos similares.

Em 2013, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) fez um levantamento em 34 paises com mais de 100 mil professores e diretores de escolas do segundo ciclo do ensino fundamental e do ensino médio. O resultado foi desolador. O Brasil apareceu como líder no ranking de violência em escolas. 12,5% dos professores ouvidos aqui disseram serem vítimas de agressões verbais ou de intimidação de alunos pelo menos uma vez por semana.

É o índice mais alto entre os países pesquisados. Depois do Brasil, vem a Estônia, com 11%, e a Austrália com 9,7%. Na Coreia do Sul, Malásia e Romênia o índice é zero.

O resultado de uma nova pesquisa deve sair em 2019 e as autoridades da área de Educação temem por números brasileiros ainda mais estratosféricos nessa contagem.

E o que a nossa sociedade tem feito diante desse cenário macabro? Quase nada, é a resposta.

A responsabilidade não pode ser atribuída apenas a questões sociais. Existe uma face oculta ainda mais grave, a omissão de pais que, diante da incapacidade de exercer a obrigatória educação de berço, saem por aí imputando aos professores defeitos e justificativas para o comportamento deplorável de seus rebentos.

Agredida com um soco no rosto em uma escola em Santa Catarina no ano passado, a professora Márcia Friggi, aponta o dedo na direção do papel dos pais e da sociedade na proteção do professor. Em um depoimento, ela escreveu: “Esta é a geração de cristal: de quem não se pode cobrar nada, que não tem noção de nada”.

Agressão a professor virou rotina no Brasil

"Não estabelecer limites, quase nunca dizer “não” e fazer todas as vontades de crianças e adolescentes são ingredientes-bomba. Derivam na síndrome do imperador, um comportamento disfuncional em que os filhos estabelecem suas exigências e caprichos sobre a autoridade dos pais, controlando-os psicologicamente e podendo chegar, não raro, a agressões físicas", sentenciou a especialista em Educação, Andrea Ramal.

As escolas públicas agonizam ainda como alvo de todo tipo de depredação e saques, com professores que trabalham sob constante ameaças dos alunos, enquanto a mercantilização do ensino particular aprova estudantes com baixíssimas notas apenas para não perder o dinheiro das caras mensalidades.

A impunidade dos estudantes que estimula a violência ganha coro com a pesquisadora Rosemeyre de Oliveira, da PUC-SP. “O aluno que agride o professor sabe que vai ser aprovado. Pode ser transferido de colégio - às vezes é apenas suspenso por oito dias”, diz. “Os regimentos escolares não costumam sequer prever esse tipo de crime. Aí, quando ele ocorre, nada acontece.”

A tese da impunidade só reforça a degradação das nossas instituições. Vivemos em um estado com moral combalida, enterrado no atoleiro da descrença e da corrupção, sem forças para impor sequer a ordem.

Subsistimos em uma mixórdia social com contradições e desigualdade, onde poderosos apunhalam a ética para se perpetuarem no poder. Onde o judiciário decreta sentenças e libera bandidos das cadeias com instrumentos que não tem o mesmo peso em todas as classes.

Não precisamos de moralistas oportunos no caso do professor Thiago. O Brasil clama é por decência, por ordem e pelo rigor na criminalização de todos os malfeitores, desde os cretinos que cometem crimes do colarinho branco até os reles ladrões de galinha.

É com justiça feita de cima para baixo, sem protecionismos, que vamos poder acreditar que um dia até a nossa Educação vai ser praticada novamente. Não precisamos de novas leis. O que necessitamos é que as existentes em nossos códigos e na Constituição sejam fielmente cumpridas.

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