Se o critério para se medir estragos fosse o tamanho de noticiário, o Brasil estaria disparado em primeiro lugar. Mas a dimensão dos incêndios extrapola a sites e telejornais
Quatro florestas no mundo estão queimando mais do que a Amazônia

 

As notícias sobre o fogo que consome parte da Floresta Amazônica continuam ardendo. Quando parece que está perto de acabar, surge outro foco e as manchetes ficam novamente incandescentes.

Uma esperança era que as chuvas pudessem apagar a maior parte das gigantescas fogueiras, mas os especialistas já explicaram que não. Isso é uma lástima para a natureza.

E por mais que forças militares e países vizinhos ajudem na tarefa de controlar os focos, a cada hora uma parte considerável das riquezas naturais da região vai sendo consumida pelas chamas.

Mas o que os jornais pouco (ou quase nada) tem noticiado é que nesse exato momento existem pelo menos quatro grandes florestas sendo devastadas por incêndios. Todos são maiores que os monitorados na Amazônia.

As informações foram divulgadas pela Nasa, que se baseou nas imagens emitidas pelo satélite Aqua, e analisadas pela Weather Source, uma empresa americana que estuda dados climáticos globais.

A área que mais queima está no continente africano. Em Angola existia no último levantamento sete mil focos de incêndio. Em seguida vem a Floresta da Bacia do Rio Congo, a segunda maior tropical do mundo.

No Congo ardiam três mil focos, enquanto no Brasil tínhamos 2012 pontos.

Na Sibéria e no Alaska também existem grandes incêndios. Nesses dois lugares a divulgação é feita pelo tamanho de área queimada, e não em focos.

Localizada em sua maior parte no norte da Ásia, com uma área de 13,5 milhões de quilômetros quadrados, a Sibéria enfrenta uma de suas mais devastadoras queimadas.

Desde o final de julho, a floresta da região e várias outras partes da Rússia estão sendo estorricadas. As chamas atingiram 6,7 milhões de acres (cada acre corresponde a 4,047 metros quadrados). O governo impôs estado de emergência.

No Alaska, território americano localizado bem no alto da América no Norte, os incêndios consumiram mais de 2,5 milhões de acres de floresta de tundra e neve. Para os pesquisadores, as mudanças climáticas e os incêndios florestais poderiam alterar permanentemente as florestas da região.

Outra situação que parece surreal é a da Groenlândia. A maior ilha do mundo, de domínio dinamarquês, fica na região ártica da América do Norte e próxima ao Polo Norte. A queima de vegetação não pode ser comparada com a da Amazônia, mas o que chama a atenção é que mesmo com temperaturas baixíssimas a maior parte do ano, em 2019 já foram registrados mais de cem grandes focos de incêndios florestais por lá. Quem levantou esse número foi a Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência da Organização das Nações Unidas (ONU) que acompanha o clima e o tempo.

Nos Estados Unidos, mais onze estados, além do Alaska, estão sofrendo com o mesmo drama. Com o intenso calor no verão europeu as queimadas atingiram regiões que tipicamente não sofriam com incêndios. Um dos países mais atingidos foi Portugal.

A explicação para tantas partes do planeta estarem virando cinzas?

Esses incêndios são provocados pelo aumento das temperaturas, que secam as plantas e as tornam mais propensas à ignição. Pesquisas publicadas neste ano sugerem que os incêndios florestais na Califórnia são 500% maiores do que seriam sem a mudança climática induzida pelo homem.

 

Os africanos não aceitam o rótulo

 

Foi só a Nasa chamar atenção para o grave momento na África para as autoridades de alguns países do continente reagirem com veemência, contestando o indesejável título. O principal argumento é de que se trata de queimadas propositais em matas, promovidas pelos fazendeiros locais com o objetivo de preparar à terra para novos plantios.

Preocupado com a repercussão, o Ministério da Agricultura de Angola soltou uma nota para se defender das críticas que eles chamaram de "uma dramatização da situação e à desinformação das mentes mais imprudentes".

"Nessa época do ano e em numerosas regiões de nosso país ocorrem incêndios por parte dos camponeses em fase de preparação das terras pela proximidade da estação das chuvas", explicou o comunicado.

De acordo com os especialistas, são técnicas ancestrais usadas pelo homem em atividades agrícolas e pastorais, que supostamente não afetam grandes massas florestais e, sim, pastos e terras de cultivo.

O sistema de queimadas pode ser visto principalmente em áreas de camponeses que não têm renda suficiente para implantar a agricultura mecanizada e ainda tentam combater pragas e doenças. As cinzas do matagal também trazem nutrientes aos futuros cultivos, mesmo que apenas a médio prazo.

"O uso do fogo para caçar, favorecer a limpeza para a agricultura e o pastoreio, facilitar as viagens e controlar as pragas é bem documentado, é tradicional e continua na atualidade em muitas partes da África", afirmou ao site do El País Peter Moore, especialista em gestão de incêndios do Departamento de Florestas da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação).

Em sentido contrário a defesa dos africanos surgem estatísticas e dados alarmantes. Um deles diz respeito a imprevisibilidade das queimadas. Cerca de 10% dos incêndios fogem do controle dos agricultores e acabam sendo responsáveis por 90% da superfície que queima, além de acelerar a erosão do solo.

"Esses são os que causam a perda de vidas, danos materiais e impacto ambiental. Até a mudança do clima e das condições do combustível os faz arder. Em muitos países da África a capacidade de manejo dos incêndios não está bem desenvolvida", afirmou Peter Moore.

Com o descontrole, a Floresta do Congo pode estar condenada a desaparecer do mapa até o fim do século. Quem fez essa previsão foi a Universidade de Maryland (UMD), através de um estudo publicado na revista Science Advances. Além das queimadas e do desmatamento realizado por agricultores para o cultivo, a extração ilegal de madeira completa o quadro ameaçador.

De acordo com o centro de estudo norte-americano, para se chegar a essa conclusão foram analisados dados de satélite coletados entre 2000 e 2014. Apenas no período de observação, a floresta perdeu cerca de 165 mil quilômetros quadrados. Para se ter uma ideia, a área representa a mesma extensão dos estados do Acre e do Ceará.

A Floresta da Bacia do Congo é conhecida como o coração da África Central e abrange boa parte de Camarões, República Centro Africana, República do Congo, República Democrática do Congo, Guiné Equatorial e Gabão. Com uma área de quase dois milhões de quilômetros quadrados, o território abriga ainda populações indígenas, elefantes e gorilas.

Se não bastasse o prejuízo a flora e a fauna, outra grave consequência dos incêndios diz respeito às emissões de gases nocivos à atmosfera. "Quando se usa o fogo para transformar áreas florestais em terras abertas há uma adição líquida de gases de efeito estufa à atmosfera. Combustíveis que não costumam ser queimados, como turfeiras e selvas tropicais, contribuem de maneira intensa a tais emissões", concluiu Moore.

O que deve acontecer daqui para frente?

Segundo o professor John Abatzoglou, do Departamento de Geografia da Universidade de Idaho (EUA), as temperaturas mais quentes e secas "vão continuar promovendo o potencial de incêndio", e, caso as tendências de aquecimento continuem, há o risco de "grandes e incontroláveis incêndios globais".

 

* a imagem da capa é apenas ilustrativa e pertence ao site Pixabay

 

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