O sumiço do jogador no Canal da Mancha só comprova quanta irresponsabilidade ainda domina o futebol
Emiliano Sala: conheça a história do jogador argentino desaparecido

Emiliano Raúl Taffarel Sala é um desses jogadores sul-americanos que nunca fizeram sucesso no próprio país porque bem cedo foram "descobertos" por empresários e arrastados para países que pagam muito melhor no futebol. Talvez esse seja um motivo para que Sala nunca tenha alcançado a seleção porque futebol o garoto tem. Tanto é que acabara de se tornar a transação mais cara da história do Cardiff. Os ingleses haviam paga 15 milhões de libras (o equivalente a R$ 73,4 milhões) pelo atacante. Mas não deu nem tempo dele se apresentar ao novo clube. O acidente aéreo foi apenas mais um em uma absurda estatística de voos fretados de forma irresponsável para se transportar jogadores. 

Emiliano é da província de Santa Fé, na Argentina. A cidade natal dele chama Cululú, que tem cerca de 300 habitantes. 

A data de nascimento do jogador consta como do dia 31 de outubro de 1990. Dizer que ele nunca atuou em divisão nenhuma de seu país também não é verdade. 

Na juventude, o menino jogou nas categorias de base do Atlético y Social San Martín, um pequeno clube da região onde cresceu. Dos quatro aos 15 anos de idade aprendeu no San Martin os primeiros fundamentos para se tornar um jogador. 

A guinada na carreira aconteceu quando ele foi convidado para integrar o Proyecto Crecer - um centro de formação de jogadores de futebol na Argentina ligado ao Bordeaux, da França.

Nessa época ele já tinha o apelido de Emi. Os amigos contam que o jovem já carregava a fama de ser um cara de comportamento respeitoso, discreto e muito quieto. 

Não há quem não elogie a postura da promessa, desde seus técnicos até seus companheiros de equipe. 

Mas o menino que foi se transformando em um verdadeiro atleta, acabou aos 20 anos assinando seu primeiro contrato profissional do Bordeaux. 

No currículo dele consta também uma rápida passagem pelo Crato, de Portugal, em 2009, mas ele chegou a disputar apenas um amistoso. Quem conta a pequena experiência em terras lusitanas é Paula Trapola, dirigente do clube na época. 

"Fez a pré-temporada e dava sinais de ser um grande centroavante. Mas só fez um jogo oficial conosco e marcou dois gols. E do nada veio nos dizer que tinha que voltar à Argentina urgentemente, por causa de uma namorada que estava com um problema" resume a dirigente. 

Se foi por saudade da namorada ou não Emiliano se mandou de Portugal, mas não foi para voltar para a casa. Ele acabou se atracando na França, para defender o time B do Bordeaux. 

Já estávamos na temporada 2010/11. Sala depois jogou também em 2011/12. Ao todo disputou 43 partidas e marcou 16 gols. 

Mas durante todo esse período Emiliano viveu entre idas e vindas a América do Sul.

"Não foi nada fácil, dos 15 aos 20 anos viajava todos os anos para períodos de adaptação. Vinha à França, ficava uns três meses, mas voltava para a Argentina. Durante esses anos me perguntei em várias ocasiões se realmente era o que eu queria ou se tinha que repensar a ideia de estudar alguma carreira. Me fiz essa pergunta várias vezes e conversei com a minha família, que sempre me apoiou em tudo", contou Emiliano Sala ao jornal argentino "La Nación" na semana passada. 

Mesmo com os bons números, Emi parecia não convencer a diretoria do Bordeaux. Virava e mexia ele era emprestado. Em 2012, foi parar no US Orléans para disputar a terceira divisão do Campeonato Francês, anotando 19 gols em 37 partidas. 

E nada de merecer uma chance no clube que era dono de seus direitos. Na temporada seguinte Sala foi cedido ao Chamois Niortais.

Só em 2014 chegou finalmente o reconhecimento. O argentino voltou à equipe B do Bordeaux, disputou duas partidas e acabou integrado ao time principal. 

Mesmo assim a bola fez Emiliano rodar de novo em 2015, ao ser emprestado ao Caen e depois vendido ao Nantes.

Até que enfim chegará o momento de se auto afirmar em um clube que acreditou para valer no argentino. 

Emiliano Sala defendeu o Nantes durante quatro temporadas. Os números dele por lá podem ser considerados muito bons. Entrou em campo 133 vezes e marcou 48 gols. 

No dia 16 de janeiro, Emiliano Sala jogou a última partida pelo Nantes. Uma pena que a recordação desse jogo será para sempre amarga. O Nimes venceu por 1 a 0, em partida do Campeonato Francês. 

Era a despedida inimaginável de Emi dos gramados. O atacante vinha fazendo bonito na competição com 12 gols marcados, ocupando o terceiro lugar na artilharia da competição, atrás apenas de Kylian Mbappé e Nicolas Pepe até aquela data. 

Com 28 anos e no auge da carreira, Emiliano estava à frente de grandes estrelas como Neymar e Cavani. 

O fim da história no Nantes foi anunciado no sábado. O clube francês divulgou que acabara de fechar negócio com o Cardiff, da Liga Inglesa. 

A venda era a mais cara já apurada pelos franceses em todo a sua existência. Envolvia a cifra milionária de 15 milhões de libras (o equivalente a R$ 73,4 milhões) por Sala. 

 

Quem é o argentino Emiliano Sala? Conheça a história do jogador desaparecido


Uma história mal contada 

 

A história da viagem da França para Inglaterra, sobrevoando o canal da Mancha, é o caminho mais tradicional.  

O voo aconteceu na noite da última segunda-feira.

O avião era um modelo "PA 46 Malibu", de turbina única, considerada uma aeronave leve especialmente preparada para atravessar condições adversas. 

O argentino estaria indo para Cardiff para fechar sua transferência, depois de deixar Nantes onde teria recolhido seus pertences e se despedido de seus companheiros.

O último contato com o controle de tráfego aéreo foi por volta das 20h (17h no horário de Brasília). Eles estariam a 15 km ao norte da ilha inglesa de Guernsey. A chegada na cidade de Cardiff estava prevista para às 21h. 

A bordo estariam apenas o piloto identificado como Dave Ibbotson, natural de Crowle, um pequeno vilarejo inglês, e Emiliano. 

A presença do piloto Dave Ibbotson é dessas fatalidades que parecem marcadas. Inicialmente não seria ele o escalado para fazer o voo. O primeiro nome da lista de três comandantes era o de Dave Henderson, de 60 anos, mas ele acabou desistindo, cedendo lugar a Dave Ibbotson, também de 60 anos.

Tabloides britânicos como The Sun e The Mirror divulgaram nessa quarta-feira, imagens de uma suposta conversa no Facebook de Ibbotson, horas antes do voo, na qual o piloto admitia pouca familiaridade com o sistema "Instrument Landing System", o sistema de precisão para efetuar aproximações e aterrissagens. "(O avião) não estava ruim quando cheguei, mas estou um pouco enferrujado com o ILS", escreveu, em postagem marcada no aeroporto de Nantes.

A Autoridade de Aviação Civil da Grã-Bretanha (CAA, na sigla em inglês), informou que, provavelmente, não havia caixa-preta na aeronave. 

De acordo com a CAA, as caixas-pretas, que registram dados de voo e conversas da cabine, são obrigatórias em aviões comerciais, mas, não em aparelhos leves, como o que Sala viajava, um PA-46 Malibu, devido ao peso da peça.

Por enquanto é tudo o que se sabe. 

Até agora tem muitas perguntas carecem de respostas lúcidas e, no mínimo, razoáveis. 

Por que se fretou um avião em frangalhos, conforme o áudio de Emiliano Sala sobre as condições do aparelho?

Quem fez a opção por esse tipo de viagem é por que não se viajou em uma aeronave segura?

Existia tanta pressa assim para se chegar a Inglaterra?

O que aconteceu com o avião?

Por que o piloto se sujeitou a voar em condições tão adversas?

O que está claro é que a direção do Cardif desconhecia o plano de voo, o tipo de avião e a forma como a sua "joia" estava sendo transportada. 

Segundo o uruguaio Diego Rolán, Sala disse a amigos próximos que estava com medo antes mesmo de o avião decolar.

O relógio marcava 20h23 de segunda-feira quando os radares pararam de detectar o avião. 

"Eu já tive várias vezes que viajar em voos privados nesse tipo de avião. Você sempre tem esse medo, mas nunca espera essa situação" gravou o jogador. 

O áudio enviado por Emiliano Sala de dentro do avião para amigos é simplesmente medonho:

"Irmão, estou morto. Estive em Nantes fazendo coisas, coisas, coisas e não termina mais. Estou aqui em cima em um avião que está caindo aos pedaços. (...) Se em uma hora e meia não tiverem notícias minhas, não sei se vão mandar alguém me buscar porque não vão encontrar, mas... já sabem. Que medo que tenho!"

O presidente do Cardiff City, Mehmet Dalman, afirmou, em entrevista à "BBC", que não foi o clube responsável pelo fretamento do voo. 

O cartola afirmou categoricamente que o jogador fez "seus próprios arranjos".

"Conversamos com ele e perguntamos se ele queria que arranjássemos um voo, que teria sido comercial. Ele recusou e negociou por conta própria. Não posso dizer quem organizou esse voo porque não sei quem foi, mas certamente não foi o Cardiff City", esclareceu Dalman.

Muitas dessas questões acabarão vindo a público com o tempo. O incrível é saber que o futebol não se emenda e continua se enfiando nesse tipo de aventura. 

A Chapecoense soltou uma nota de solidariedade em sua rede social e dá para imaginar o quanto esse episódio deve estar fazendo aquelas 71 famílias do acidente na Colômbia reviverem uma dor absurda. 

 

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