O técnico do Palmeiras assumiu há três meses e, em pouco tempo, levou o time a liderança do Brasileiro e a semifinal da Libertadores
A luta de Felipão para mostrar que o tempo dele não passou

Felipão está longe de ser uma unanimidade. O estilo duro do treinador e suas ideias táticas fizeram Scolari colecionar admiradores e, também, muitos críticos. Aqueles que tem restrições ao técnico vão citar muito mais do que o vexame dos 7 a 1 do Brasil para a Alemanha como bons motivos para não morrer de amores pelo senhor Luiz Felipe. Mas uma coisa ninguém pode negar, o homem não foge de desafios.

A constatação pode ser feita no retorno dele ao Palmeiras. Com 69 anos e rico, muito rico, o professor não precisa ganhar mais nada na vida, nem dinheiro e nem titulos, para ter uma carreira realizada.

Mesmo assim, ele tem feito até aqui um trabalho digno de elogios. Ao assumir o clube paulista encontrou um time oscilante, com momentos na temporada em que dava pinta de que iria deslanchar, intercalados com resultados desaninadores. Seu antecessor, Roger Machado, chegou ao fim da linha no dia 26 de julho. Menos de 24 horas depois Felipão foi anunciado pelo clube.

A estreia aconteceu diante do América, um empate sem gols. De lá para cá foram 14 vitórias, mais 2 empates e apenas duas derrotas em 19 duelos. Isso até o domingo, dia 14 de outubro. Em tão pouco tempo, Scolari conseguiu levar seu time para a liderança do Campeonato Brasileiro e a semifinal da Libertadores. A campanha só não é mais digna de aplausos porque o Palmeiras foi eliminado da Copa do Brasil pelo Cruzeiro.

Mas como entender esse "fenômeno" Felipão com quase sete décadas de vida nas costas?

Tudo começou em Passo Fundo. Luiz Felipe nasceu no dia 9 de novembro de 1948. Descendente de italianos (seus avós eram imigrantes da região do Vêneto), Scolari começou a carreira no futebol aos dezessete anos, nos juvenis do Aimoré, da cidade gaúcha de São Leopoldo.

Nunca foi um jogador habilidoso, pelo contrário. Quem viu ele jogar fala que Scolari era viril, mas sem ser desonesto com os atacantes. Jogou ainda no Caxias, Juventude e Novo Hamburgo. O último clube foi o CSA, onde conquistou seu único título como jogador, o Campeonato Alagoano de 1982, e depois se tornou treinador lá mesmo.

A trajetória como técnico ganhou prestígio no Rio Grande do Sul. Comandou Juventude e Brasil de Pelotas e acabou indo parar no Grêmio para se tornar campeão estadual em 1987. Depois seguiu para o Goiás.

Iniciou a década de 90 passando pelo futebol do Kuwait e da Arábia Saudita. De volta ao Brasil realizou uma das maiores façanhas da carreira ao levantar com o Criciúma o título da Copa do Brasil de 91.

A lista de títulos é bem grande. Resumindo apenas os mais importantes, podemos destacar a segunda Copa do Brasil, em 94, de novo a frente do Grêmio. No ano seguinte ganhou a Copa Libertadores com o tricolor gaúcho. Na sequência, a Recopa Sul Americana e o Brasileirão de 96, ainda no mesmo clube.

Na temporada 97, dirigiu por pouco tempo o Júbilo Iwata, no Japão.
Em 98, já no Palmeiras foi tricampeão da Copa do Brasil e campeão da Copa Mercosul. Em 99 faturou pela segunda vez uma Libertadores.

A viagem pelo túnel do tempo chega a 2002 e ao êxtase da carreira. O Brasil carregou no Japão a taça de campeão do Mundo com Scolari de treinador. 

Dois anos depois foi vice campeão da Eurocopa com a seleção de Portugal. Durante esse período conheceu e ficou amigo de Cristiano Ronaldo. Felipão era tão querido do gajo que quando o pai do jogador morreu, quem deu a notícia para o craque foi Scolari. Antes de encerrar o ciclo no país luso levou a seleção ao quarto lugar na Copa da Alemanha.

 

Quem falou que o tempo de Felipão passou?

 

A passagem pelo Chelsea, da Inglaterra, não frutificou. Nada de títulos e uma batida em retirada com apenas 6 meses de contrato. Mas Felipão logo deu a volta por cima.

No ano seguinte se mandou para o Uzbequistão. Seu novo time foi o Bunyodkor e, com um incrível recorde de 23 vitórias seguidas, conquistou o Campeonato Uzbeque.

Em 2012, ganhou pela quarta vez a Copa do Brasil com o Palmeiras. De volta a seleção arrebatou a Copa das Confederações, em 2013, e na sequência viveu seu pior momento no mundo do futebol ao tomar aquela goleada implacável para os alemães na Copa realizada no Brasil.

O placar do jogo foi tão vexatório e humilhante que parecia que aos 64 anos Felipão tinha chegado ao fim da linha. Considerado velho e ultrapassado o treinador teve que ouvir de tudo. Estava acabado como treinador. Afinal, quem ainda iria apostar em um técnico tão decadente?

Só podia ser seu Grêmio, o clube que Felipão mais teve identificação durante toda a carreira. Mas o retorno ao tricolor não foi nada favorável, não durou nenhum ano. Foi o próprio Scolari que entregou o chapéu.

Seus críticos aproveitaram para reforçar o discurso do técnico acabado. O desastre no Grêmio só reforçava o que muita gente pensava, o futebol tinha se esgotado para esse senhor.

Quase todo mundo, menos Felipão, alguns amigos, admiradores fiéis e a diretoria do Guangzhou Evergrande, da China, que procurou Scolari depois de dispensar o técnico italiano Fabio Cannavaro.

Em 2015, Felipão conquistou com o Guangzhou o título do Campeonato Chinês. Na passagem pelo Oriente, Scolari arrebatou mais 6 taças. O fim da fase de ouro terminou no ano passado, por decisão do próprio Luiz Felipe que não quis renovar com o clube. Na despedida, centenas de torcedores foram ao aeroporto dar adeus ao treinador.

 

Quem falou que o tempo de Felipão passou?

 

A página seguinte desse livro está sendo escrita em São Paulo. Por onde passa, Felipão precisa, até hoje, invariavelmente, responder perguntas sobre os 7 a 1. Na apresentação no Palmeiras de novo ele foi questionado sobre a humilhação que o Brasil passou. Sem papás na língua, e com o estilo que incomoda a muita gente, disparou essa: "A mim, qualquer situação não me chateia em nada: 7 a 1, 0 a 0, 5 a 5... não me afeta em nada. Só afeta a algumas pessoas da minha família, mais sensíveis ao que é escrito por aí."

Curto e grosso, falou também sobre a última passagem pelo clube em 2012, quando foi demitido dois meses e meio antes da queda do Palmeiras para a Série B: "Já passou e não vai adiantar ficar remoendo isso. Eu não gosto de uma ou outra pessoa e não vai mudar nada para mim ou para ele e acabou."

Agora Felipão está tendo que responder com resultados se valeu o Palmeiras apostar em um treinador com fama de rotulado de superado. Nos primeiros três meses ele foi muito bem.

Se Scolari vai ser campeão ou não novamente no Brasil ninguém pode afirmar. Mas que ele sempre surpreende, isso é fato. Com coragem, língua afiada e com títulos.

Vamos sentar e esperar para ver a resposta final, se Felipão merece todos os aplausos.

 

A luta de Felipão para mostrar que o tempo dele não passou

 

 

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