As imagens dos dois sem vida nas margens do Rio Grande chocaram o mundo
Quem são pai e filha que morreram afogados na tentativa de entrar nos USA

Não é de hoje que tragédias como essa se repetem com frequência na tentativa desesperada dos imigrantes chegarem aos Estados Unidos. Somente no ano passado, a Patrulha da Fronteira anotou 283 mortes nos limites com o México.

Em 2012, a cruel estatística foi ainda mais assombrosa. O bárbaro levantamento chegou a 463 imigrantes mortos.

No último final de semana, tão apavorante quanto o desaparecimento dos corpos de pai e filha nas águas do Rio Grande, foi a confirmação da morte de mais quatro guatemaltecos no deserto do Texas. Três crianças e uma mulher foram encontradas sem vida por causa da desidratação.

Em abril, três crianças e um adulto hondurenhos morreram depois que uma balsa virou também no Rio Grande. No início de junho, uma criança indiana de seis anos foi encontrada morta no Arizona, provavelmente por desidratação, por causa das altas temperaturas nessa época do ano.

 

O sonho americano que virou um pesadelo

 

Trocar a vida de garçom de uma pizzaria de El Salvador pela expectativa de ganhar muitos dólares nos Estados Unidos era a esperança de Óscar Alberto Martínez Ramírez, de 25 anos. "Eu implorei para eles não irem, mas ele queria juntar dinheiro para construir uma casa", conta a mãe, dona Rosa Ramírez.

Quem encorajava Óscar a tentar um futuro diferente em outro país eram alguns parentes dele que já moram em Dallas. Eles garantiam que emprego não faltaria para Ramírez.

Dona Rosa alega que fez de tudo para o filho desistir da ideia. "Eu disse a ele para parar de perseguir o sonho americano, que não era fácil cruzar a fronteira perto do rio", contou ao site ElSalvador.com.

Não teve jeito. No dia 3 de abril, Óscar partiu do município de San Martin com a mulher Tania Vanessa Ávalos, de 21 anos, e com a filha Angie Valeria, de 1 ano e 11 meses. A ideia era chegar aos Estados Unidos atravessando o México. O percurso seria de 2.250 quilômetros.

Primeiro a família se refugiou, durante dois meses, em um abrigo de imigrantes perto da fronteira com a Guatemala, na cidade mexicana de Tapachula. De imediato, eles receberam um visto humanitário que permitia aos Ramírez residir legalmente no país enquanto tramitava o pedido de asilo americano.

Mas a lista de espera tinha cerca de 1.700 nomes e, impacientes com a falta de definição sobre a solicitação legal, na semana passada o casal zarpou para a cidade de Matamoros, no estado de Tamaulipas.

Ao chegar ao novo refúgio, Óscar teria constatado que a espera ali seria igualmente longa e cansativa. Eles necessitariam aguardar um longo tempo para serem atendidos pela Agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA.

No sábado o salvadorenho tomou a decisão de chegar em solo americano atravessando o Rio Grande. A tentativa seria no domingo. No mesmo dia ele trocou mensagens com a mãe pela última vez.

"Ele disse 'mamãe, eu te amo'. Cuidem de si mesmos porque estamos bem aqui", relatou dona Rosa. O coração de mãe sentiu um aperto nessa hora. "Quando eu li essa mensagem, eu não sei, isso me fez querer chorar porque eu a via como uma espécie de adeus", resumiu a senhora.

"Eles disseram que estavam com medo de como a situação dos imigrantes estava sendo pressionada por Trump", confidenciou Wendy, irmã de Óscar, ao El Diario de Hoy.

No domingo à tarde, Ramírez entrou nas águas do Rio Grande carregando no colo a filha Angie.

Segundo um funcionário do estado de Tamaulipas, os dois partiram de um pequeno parque ao lado do rio. O local parecia um lugar calmo e tranquilo.

A travessia deles, inicialmente, foi sem problemas e a dupla alcançou a margem do outro lado. Um pouco mais atrás seguiam a esposa Tania Vanessa com um amigo do casal. Mas em determinado ponto ela sentiu medo e resolveu retornar.

Nesse momento, Ramírez resolveu voltar até o lado mexicano para ajudar a esposa e deixou a pequena Angie sozinha. Quando Óscar estava no meio do rio ele percebeu que a garota também tinha entrado novamente na água e correu para ajudá-la. Essa foi a última cena presenciada por todos.

Uma correnteza forte teria puxado pai e filha.

Equipes da defesa civil chegaram ao local perto das 19 horas, mas as buscas não puderem prosseguir por muito tempo por causa do anoitecer. No dia seguinte todos retomaram a procura até que os corpos foram localizados.

Óscar e Angie foram encontrados abraçados na margem do rio em Brownsville, uma cidade texana. O local fica a cerca de 500 metros do ponto em que eles entraram na água. Um quilômetro à frente se encontra uma ponte internacional que liga os dois países.

A jornalista mexicana Julia Le Duc, a primeira a ver os corpos, tirou uma foto mostrando o braço da menina em volta do pescoço do pai. Os dois ainda estavam unidos pela mesma camisa preta que Ramírez usava.

Na imagem chocante é possível ver nas águas turvas, onde são descartados garrafas plásticas e muito lixo, os dois deitados de bruços.

"Parece que, em desespero, ele colocou a menina na camiseta para não perdê-la na corrente e o que aconteceu é que a corrente os levou e ambos se afogaram", disse Le Duc.

De acordo com as autoridades de imigração e defesa civil de Tamaulipas, em visita aos abrigos nas últimas semanas, elas haviam alertado os refugiados para não tentarem a travessia pelo rio. Nesse período do ano as barragens liberam mais água para a irrigação. Na superfície, o Rio Grande parece plácido, mas fortes correntes passam por baixo.

"O Rio Grande é muito forte, aparentemente um afluente suave, mas a verdade é que tem muitas correntes e redemoinhos", disse Julia Le Duc.

"Eu tenho visto muitas imagens de corpos, mas esta aqui pode sensibiliza-lo, você pode ver que o pai colocou a garota dentro de sua camisa para que ela não fosse carregada", acrescentou.

Nessa região do Rio Grande, todo mês pelo menos uma pessoa morre afogada tentando chegar aos Estados Unidos. 


 

Quem são pai e filha que morreram afogados na tentativa de entrar nos USADora Rosa Ramírez

 

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