A morte do jornalista Rafael Henzel pode parecer algo totalmente estúpido e sem sentido, mas, no fundo, é a única coisa certa da vida
Rafael Henzel - como alguém pode sobreviver a uma queda de avião e morrer jogando pelada

Entre a queda do avião da empresa LaMia, que transportava a delegação da Chapecoense, e a fatalidade da morte de Rafael, se passaram 881 dias. Foi como um piscar de olhos, dizia-se antigamente. Ninguém poderia imaginar que o fim da história de Henzel seria tão rápido e de um jeito que parece tolo. Como alguém pode escapar de um acidente aéreo de proporções gravíssimas e depois morrer jogando uma simples “pelada”? É a lei da vida. Desde que o homem está na face da terra, esse é o maior mistério que nos cerca. Nunca saberemos quando será a “hora” de cada um. Como bem disse Menon em seu blog: “O dia de nossa morte é igual a todos os outros que vivemos. Só que mais curto”. O de Rafael terminou às 21h10 desse 26 de março, com apenas 45 anos. 

Rafael Henzel era gaúcho. Nasceu na cidade de São Leopoldo no dia 25 de agosto de 1973. Por coincidência, mesmo ano de fundação da Chapecoense. 

Como muitos outros radialistas, começou a carreira com os microfones em punho quando ainda era muito jovem, com apenas 15 anos. A primeira emissora que ele trabalhou também foi a última em que ele esteve no ar: Rádio Oeste Capital FM, em Chapecó. 

Ao longo de suas atividades profissionais passou por outras rádios da região e foi parar na televisão. Em Xanxerê, em Santa Catarina, estreou como repórter na RCE TV, em 1993. Seis anos depois se transferiu para a TV Rio Sul, em Resende, no interior do estado do Rio de Janeiro. A emissora, afiliada da TV Globo, pertence ao ex-árbitro e comentarista Arnaldo Cézar Coelho. 

Quando Rafael decidiu voltar para o rádio o retorno foi também em Chapecó. No regresso ele vestiu a camisa da Oeste de SC. Nesse novo período em “casa”, Henzel viveu de perto a ascensão extraordinária da Chapecoense. O clube saltou da Série D, em 2009, para a principal divisão do futebol brasileiro em 2014.

Henzel ainda deu mais um passo rumo às origens dele de radialista. Rafael reassumiu o posto de principal narrador da Rádio Oeste Capital FM e acompanhou com o time da Chapecoense toda a campanha do clube na Copa Sul-Americana de 2016.

No final daquele ano foi escalado para viver uma das maiores coberturas da carreira: o primeiro jogo da decisão entre Chape e Atlético Nacional, em Medellín. No dia 28 de novembro, Henzel era um dos 77 ocupantes do voo fretado da LaMia que seguia para a Colômbia. 

A aeronave caiu quando se aproximava do aeroporto José Maria Córdova, em Rio Negro. Apenas seis pessoas não morreram. 

Na tragédia, além de Henzel, sobreviveram o goleiro Jackson Follmann (que teve uma perna amputada), o lateral Alan Ruschel e o zagueiro Neto. Dois tripulantes bolivianos também saíram vivos, a comissária Ximena Suárez e o técnico da aeronave Erwin Tumiri. 

Dos 21 jornalistas a bordo Rafael foi o único a se salvar. Quando contava os momentos dramáticos que viveu no acidente, Henzel dizia que estava dormindo no instante que o avião se chocou contra árvores e se espatifou no solo. 

Ele acordou quando os socorristas já estavam procurando por sobreviventes. Henzel contava que para ser percebido preso entre duas árvores, pressionado de um lado por bancos do avião e pedaços de galhos sobre suas pernas, ele gritou por socorro.

Em uma delicada operação de resgate, o radialista da Oeste Capital foi o penúltimo a sair do local. Não foi fácil tirá-lo daquela situação. Como o local era íngreme e com muitas pedras, o jornalista demorou cerca de 40 minutos desde o primeiro atendimento até chegar ao hospital. 

Rafael passou por vários exames que constataram fraturas em sete costelas e dois dedos do pé direito destroncados. Durante a recuperação ele ainda contraiu uma pneumonia. 

A internação na Colômbia durou duas semanas, sendo 10 dias na UTI. De volta ao Brasil, Henzel continuou internado em um hospital de Chapecó até o dia 19 de dezembro. Tão rápida quanto a recuperação de Rafael foi também a volta aos microfones. Em janeiro de 2017 ele já estava narrando os jogos da querida Chapecoense. 

O reaparecimento no ar foi durante um jogo amistoso contra o Palmeiras. Henzel contou a história do empate em 2 a 2. Era só o começo de um ano marcante para o radialista. No decorrer da temporada ele acompanhou a campanha tocante da Chape na Libertadores. 

Rafael ainda lançou um livro com o título "Viva como se estivesse de partida". O sobrevivente do voo 2933 da LaMia quis contar detalhes da tragédia e como foi a recuperação física e psicológica. Em um dos trechos, ele fala da vontade de viver intensamente.

“A vida é um sopro. Muitas vezes nos esquecemos de viver por causa do nosso trabalho, das nossas obrigações. Só que isso não é viver, mas sim sobreviver. Viver é outra coisa. Sobreviver é o que a gente faz todos os dias, sem nos dar conta. Viver é um pouco diferente. Ter vida é diferente. Quem sabe com um pouco de tranquilidade e reflexão possamos viver, ter uma vida plena e não apenas sobreviver. Se não pararmos com esse ciclo vicioso, continuaremos apenas sobrevivendo”.

Rafael destacou ainda dois comportamentos que mereciam ser tratados de formas diferentes. A gentileza deve ser valorizada em cada detalhe do dia, enquando o medo precisa ser combatido.

“Nós estamos neste mundo com um propósito. E qual seria ele? Eu acho que é fazer o bem ou tentar mostrar que se pode fazer o bem, ser gentil, alegre. Muitas vezes, nós desarmamos com um sorriso. A gentileza desarma muitas dificuldades que podem surgir em uma relação pessoal. Lembrando que os nossos dias não são perfeitos durantes todas as suas 24 horas. Todos têm problemas em casa, no trabalho, na escola. Entretanto, se formos gentis nos sentiremos mais contentes. A alegria evita doenças”.

“Algumas vezes tive medo lá na Colômbia, ainda mais percebendo tudo o que ocorreu, a tristeza das mortes, o que poderia ter acontecido comigo. Mas o medo precisa ser enfrentado. Eu enfrentei esse medo, e as boas notícias vieram. E assim, de forma quase automática, todo e qualquer temor foi embora. Esse medo que nos ataca se transforma em coragem. Você sente que há possibilidades e, então, a coragem vem. E com ela uma vontade de melhorar, de acreditar nas pessoas ao seu redor, nos médicos, nos familiares”.

Nas redes sociais, ele se definia como um "apaixonado pela profissão". Depois do acidente, Rafael também adotou uma segunda data como a de nascimento: "Nascido em 25/08/1973 e 29/11/2016" (devido à diferença de fuso horário, quando o avião caiu na Colômbia já era dia 29 no Brasil). 

Na radio Oeste Capital, além de continuar narrando jogos, ele comandava os programas o Som e o Clássico

Em 2018, Rafael viveu a outra face da moeda no futebol. Ele acompanhou até às últimas rodadas a luta do time de coração para escapar do rebaixamento no Campeonato Brasileiro para a Série B. 

Na semana passada Henzel retornou de uma viagem à Europa. Ele foi participar nos festivais de Berlim e Thinking Football Film do lançamento do documentário "Nossa Chape". A produção dos irmãos Michael e Jeff Zimbalist conta detalhes da repercussão mundial da tragédia.

O jornalista ainda entregou uma camisa autografada da Chapecoense a dirigentes do Atlético de Bilbao, clube da Espanha.

A paixão pelo futebol, que sempre esteve presente na vida de Rafael, o acompanhou até os últimos minutos. Como fazia toda terça-feira, depois de encerrar a jornada na rádio, ele se reuniu com amigos para jogar uma bola. Foi durante a tradicional “pelada” que o sobrevivente do voo da Colômbia se sentiu mal. Ele ainda chegou a ser levado de helicóptero para o Hospital Regional do Oeste, mas dessa vez não venceu a morte. 

Nessa quarta-feira, Henzel iria narrar a partida Chapecoense e Criciúma pela Copa do Brasil. Ele nos deixou e também a esposa Jussara e o filho Otávio, 14 anos. 

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Eder João De Almeida

Eder João De Almeida

Esse é o poder de Deus, como dizia José de Alencar, se Deus quiser não tem médico q consiga curar essa doença, mas se Ele quiser também, não terá doença que me tire dessa vida, nossas vidas estão nas mãos d'Ele!
★★★★★DIA 28.03.19 13h19RESPONDER
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