A febre de apostar em novos treinadores de futebol no Brasil pode custar caro para muita gente quando a renovação pula etapas
Renovação no futebol: na prática a teoria é outra

Ouvi pela primeira vez a frase "na prática a teoria é outra" quando ainda era estudante de jornalismo. Em tempos sem internet, redes sociais e YouTube, garimpar um diamante assim só através de livros e boas revistas. Mas foi em um disco de vinil com narrativas sobre grandes coberturas jornalísticas feitas pelo genial Joelmir Betting que um dia escutei essa lição.

Nunca me esqueci desse ensinamento que me acompanha todos os dias. Por mais que até brilhantes cientistas desenhem projetos baseados em vasta teoria, quando se tira do papel e leva para a execução os experimentos podem não ser exatamente como se esperava.

Um exemplo clássico remonta a década de 60 e o fracasso do lançamento da Apollo 1, o primeiro foguete tripulado que deveria levar astronautas à órbita terrestre.

Mesmo com minuciosos estudos realizados durante seis anos e vários testes, no dia 27 de janeiro de 1967, na plataforma de lançamento no Cabo Kennedy, na Flórida, aconteceu a tragédia. Três astronautas escalados para a expedição faziam uma simulação no interior da cápsula, ainda em solo, quando um curto-circuito no painel de controle da cabine provocou um incêndio. Como a escotilha de saída possuía apenas trancas mecânicas, nem os esforços dos astronautas em abrí-las pelo lado de dentro, tampouco da equipe que trabalhava na área externa da espaçonave, tiveram êxito no destravamento e, em cinco minutos, os três tripulantes estavam mortos por asfixia.

Essa trágica experiência reforça bem a teoria de que não basta usar apenas a velha prancheta ou os modernos computadores para acertar na construção de grandes projetos. É preciso, antes, testar bem para ver se funciona.

Essa viagem pelo universo sem fronteiras da experiência humana vale para tudo na vida. No futebol estamos vivendo um fenômeno que também reproduz a diferença entre a teoria e a prática, ou a falta dela.

Depois da vexatória derrota do Brasil para a Alemanha por 7 a 1 na Copa do Mundo de 2014, criou-se um conceito de que era preciso reinventar quase tudo no futebol brasileiro. O chute inicial seria forjar uma nova geração de treinadores sob o pretexto de que alguns nomes consagrados já estariam nos acréscimos de suas carreiras. Vanderlei Luxemburgo, Leão, Parreira e tantos outros medalhões não teriam mais a acrescentar.

Nos últimos quatro anos, pouco mais de uma dúzia de promissores profissionais foi alçada ao comando de equipes de ponta com o estigma de "treinadores modernos". A lista pode ser encabeçada por nomes como o de Roger Machado, Fábio Carille, Zé Ricardo, Jorginho, Deivid e Enderson Moreira. Todos foram "promovidos" ao comando de times de primeira grandeza.

Mais recentemente outros nomes vieram se juntar aos novos coach e aí surgiram Thiago Larghi, Rogério Ceni, Osmar Loss, Maurício Barbieri, Alberto Valentim, Felipe Conceição, Diogo Giacomini e Odair Hellmann, isso para citar apenas os guindados aos times de Minas, Rio, São Paulo e Rio Grande do Sul.

Qualquer renovação é sempre importante e necessária. São os jovens que com impetuosidade impulsionam a sociedade, trazem idéias novas e obrigam os mais velhos a estarem sempre se reciclando para sobreviver em mercados cada vez mais competitivos. Essa é uma cadeia de processos em que todos ganham.

O que não se pode esquecer e abrir mão é da experiência, um aprendizado que se acumula através de conhecimento obtido com a prática ou da vivência sistemática que se aprimora com o passar do tempo. Na aviação essa necessidade é bem conhecida. Nenhum piloto se torna comandante de grandes aeronaves sem antes possuir muitas horas de voo. Ou seja, é preciso tempo para ganhar bagagem e alçar voos maiores.

Em todas as atividades existem pessoas brilhantes que fizeram algo extraordinário de forma precoce. São os que convencionamos chamar de "fenômenos" exatamente porque, mesmo pulando etapas, se mostraram excepcionais.

Mas isso não acontece todos os dias nem com todos os mortais. Na lei natural da sobrevivência é preciso estudar e trabalhar muito no início da carreira até obter resultados.

Basta se fazer uma consulta na lista dos técnicos campeões brasileiros a partir de 1971 (quando a principal competição nacional de futebol passou a se chamar Campeonato Brasileiro) para se ver o quanto eles precisaram "viver" muito no futebol antes de alcançar a glória. A exceção é o gaúcho Paulo César Carpegiani, que com apenas 33 anos levou o Flamengo ao título nacional em 1982. Depois aparecem Carlos Alberto Silva, com o Guarani em 1978, Carlos Alberto Torres, em 1983 com o Flamengo e Paulo Autuori, campeão brasileiro em 1995 com o Botafogo. Todos tinham a mesma idade quando da conquista dos títulos mencionados: 39 anos.

Na versão de pontos corridos do Campeonato Brasileiro o caçula é Fábio Carille, com 44 anos. Todos os outros tinham pelo menos 50 anos quando as equipes que dirigiram se tornaram campeãs nacionais.

Dos citados novos treinadores, poucos já conseguiram provar que estavam prontos para se sentar no banco dos "Boeing" que tentaram tirar do chão. O principal deles, claro, é Fábio Carille, que conquistou também dois campeonatos paulistas com o Corinthians, em 2017 e 2018, além do Brasileirão do ano passado. A lista de títulos dessa turma é completada pelo campeonato Mineiro, ganho pelo Atlético de Roger Machado no ano passado e o Carioca de 2018, vencido por Alberto Valentim no Botafogo. Mesmo assim Roger e Valentim já não estão mais nos mesmos clubes. De lá para cá Roger foi dispensado do Atlético e do Palmeiras. Já Valentim trocou o Botafogo pelo Pyramids, do Egito, onde ficou apenas três jogos sendo demitido por ter brigado com o dono do clube. Voltando ao Brasil, foi contratado pelo Vasco da Gama, mas com 4 derrotas em 4 partidas já está ameaçado de perder o emprego outra vez.

Quanto aos outros há pouco o que acrescentar, a não ser que enquanto acumulam aprendizados lutam todos os dias para mostrar que merecem estar onde foram colocados. Larghi, Jair, Odair e Barbieri ainda podem conquistar títulos esse ano, mas a vida deles no Atlético, Corinthians, Inter e Flamengo anda cheia de altos e baixos.

Pode parecer um contrassenso, antagonismo, mas antes de se tornar um coach é preciso muito treinamento e esta é uma regra da qual nem os próprios treinadores conseguem escapar. Só os gênios.

 

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Gustavo Mendes

Gustavo Mendes

A maioria desses "novatos" tiveram bons resultados num espaço curto de tempo, e ainda quando assumiram equipes das quais já trabalhavam direta ou indiretamente.
Com isso, acredito que além do conhecimento do ambiente, eles conseguiram "ganhar" os jogadores por já os conhecerem, e claro, trata-se de futebol, onde o imponderável e outros fatores externos ponderáveis contam muito.
★★★★★DIA 14.09.18 18h54RESPONDER
Guilherme Mendes
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Obrigado por ter deixado o seu comentário. Volte sempe, Gustavo. Abraço

★★★★★DIA 16.09.18 11h43RESPONDER
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