Empresa americana localizou o submarino a uma profundidade de 907 metros, mas muitas perguntas ainda precisam de respostas
A história do submarino argentino encontrado depois de um ano

Finalmente acabou a longa operação para localizar o submarino argentino ARA San Juan. A embarcação está enfiada no fundo de um cânion marítimo no Oceano Atlântico. Na quinta-feira, dia 15, completou um ano que foi feito o último contato da tripulação com a Base da Marinha do país. O comandante relatou que havia entrado água em uma área de ventilação, o que provocou um princípio de incêndio no compartimento de baterias. Inicialmente, o problema foi controlado e eles seguiram a viagem em direção a Mar del Plata. Só 48 horas depois o submarino foi dado como procurado pelo Governo e apenas no dia 23 de novembro as autoridades admitiram ter havido uma explosão no fundo do mar no dia do desaparecimento. Mas afinal, o que aconteceu depois da última comunicação? Por que se demorou tanto para admitir o sumiço do submarino? Faltou agilidade nas buscas? A embarcação era velha e já deveria ter sido aposentada? Essas são apenas algumas perguntas que os argentinos esperam por respostas. 

O ARA San Juan foi construído na Alemanha entre 1983 e 1985 antes de ser incorporado a frota argentina. Tinha 62 metros de comprimento por sete metros e meio de largura e pesava 2.100 toneladas. O submarino era um dos seis da classe TR-1700 encomendados aos alemães, mas só dois foram construídos. Concebido para participar de missões secretas de vigilância, com motores funcionando a diesel e energia elétrica, o submarino poderia navegar a 260 metros de profundidade. 

Embarcações desse tipo são projetadas para atravessar oceanos de forma quase indetectável para não serem reconhecidas em caso de conflito. Geralmente permanecem em silêncio e nem emergem para estabelecer contato de rádio ou telefone com suas centrais. 

Para ter sua vida útil aumentada em mais três décadas, o ARA San Juan foi submetido em 2008 a um “reparo de meia-vida". O submarino, um dos três da frota da Argentina, com 32 anos era considerado um “velhinho”. A reforma durou quase sete anos e foi um trabalho difícil de engenharia nas instalações do Complexo Naval Industrial Argentino (Cinar). O casco do navio precisou ser cortado pela metade porque era impossível remover ou entrar com novos equipamentos pelas pequenas escotilhas. 

A última viagem começou em Mar de Plata. O submarino zarpou em direção ao Porto de Ushuaia, na Patagônia, para realizar exercícios militares. A bordo estavam 44 tripulantes, entre eles a única mulher oficial de submarinos da marinha argentina. Há dois dias a equipe fazia o caminho de retorno. A viagem prosseguia pelo Oceano Atlântico, na altura do Golfo de San Jorge, a 450 kms da costa, e deveria durar mais 4 dias.

 

A história do submarino argentino encontrado depois de um ano

 

Ninguém sabe ao certo o que aconteceu no dia 15 de novembro. Provavelmente o ARA San Juan havia emergido até a superfície para renovar o ar e recarregar o sistema de baterias. Mas na manobra teria entrado água no snorkel, um equipamento usado nesse tipo de operação, o que teria provocado o curto circuito. Os relatos mostram que o comandante de terra deu uma ordem para a ARA San Juan retornar imediatamente a base em Mar del Plata, mas em outra versão apresentada várias vezes a Marinha da Argentina garantiu que a falha havia sido "corrigida" e que o submarino continuou navegando normalmente. 

 

Demora na reação

 

As críticas a reação da Marinha e do Governo da Argentina são muitas pelo episódio. Só dois dias depois do último contato é que as autoridades anunciaram que não se se sabia do paradeiro da tripulação do submarino. Dali para frente se iniciou a maior operação de busca que se tem conhecimento na história. Treze países ajudaram na procura do ARA San Juan, entre eles o Brasil, que enviou três navios da Marinha e disponibilizou dois aviões da Força Aérea. 

A força-tarefa era composta ainda por aviões e embarcações até do Reino Unido, um antigo inimigo dos argentinos por causa da disputa pelas Ilhas Malvinas. Chile, Peru, França, Estados Unidos, Noruega, Alemanha e Colômbia também correram para ajudar. O tempo era precioso. O ARA tinha capacidade de permanecer apenas sete dias submerso e quatro já haviam se passado. 

No dia 23 de novembro uma informação trouxe um grande desânimo. A Marinha da Argentina comunicou que dados coletados por estações hidroacústicas da Organização do Tratado de Interdição Completa de Ensaios Nucleares (CTBTO) captaram um barulho "incomum", condizente com uma explosão, provindo de uma região localizada cerca de 30 milhas ao norte do último local em que se teve notícias da embarcação. O fato teria acontecido três horas depois do contato derradeiro do comandante Pedro Martín Fernández relatando o pequeno incêndio. 

No dia 30 de novembro, um boletim oficial da Marinha foi ainda mais decepcionante para os familiares da tripulação do San Juan. Não havia mais esperança em encontrar sobreviventes. As operações navais passaram a ser apenas para localizar a embarcação, e não mais tratadas como uma "missão de resgate".

No dia 5 de dezembro, o governo argentino confirmou oficialmente a morte de todos os 44 tripulantes do submarino. Antes do final de 2017, vários países se retiraram da missão de procura ao ARA. 

Mas as famílias nunca se conformaram com a postura do presidente Maurício Macri. Todo o governo foi alvo de duras críticas. Esse ano vários parentes dos tripulantes armaram um acampamento na Praça de Maio, que fica em frente à Casa Rosada. Depois de 52 dias de protestos em sua porta e de ter gasto mais de 25 milhões de dólares o governo argentino resolveu contratar a empresa americana Ocean Infinity para retomar o rastreamento.

 

A história do submarino argentino encontrado depois de um ano

 

Mas a escolha da empresa americana trouxe muita desconfiança as famílias. A Ocean Infinity ficou conhecida por participar da busca pelo avião da Malaysia Airlines, desaparecido em 2014, e que nunca foi encontrado. Com o governo argentino eles fizeram um contrato de risco. Só seriam recompensados se localizassem o San Juan. O valor: 7 milhões e meio de dólares. 

As operações recomeçaram no dia 7 setembro com a participação de sessenta pessoas. A bordo do navio Seabed Constructor elas operavam cinco veículos submarinos autônomos por controle. Depois de muitas buscas infrutíferas os americanos ameaçaram suspender a procura ao San Juan, que seria retomada em fevereiro de 2019. Mas a juíza encarregada da ação, Martha Yáñez, de Caleta Olivia, ordenou que antes deles saírem das águas do Atlântico fosse inspecionada uma zona mais longínqua por onde um navio rastreador captou ruídos que poderiam ser compatíveis com pancadas de um casco.

A permanência por lá deu certo. Usando um veículo submarino operado remotamente com câmeras, na sexta-feira a Ocean Infinity informou que havia localizado no ponto de interesse 24 um objeto de aproximadamente 60 metros de comprimento depois de revisar imagens obtidas previamente.

A confirmação de que era mesmo o ARA San Juan veio na madrugada de sexta para sábado. Através de uma conta no Twitter o Ministério da Defesa e a Marinha da Argentina divulgaram que se tratava de uma identificação positiva. 

Segundo relatório da Ocean Infítiny, o submarino está localizado a 907 metros de profundidade e a 600 km da cidade de Comodoro Rivadavia, onde se tinha montado o centro de operações durante a busca. As primeiras avaliações da Marinha ao ver as imagens, indicam que o submarino deve ter implodido no fundo das águas do oceano. O porta voz Enrique Balbi afirmou que a proa, a popa e a vela se desprenderam e se espalharam em uma área de 80 a 100 metros. "Isso sugere que a implosão tenha ocorrido muito perto do fundo do mar", explicou Balbi.

O problema agora é fazer o resgate. Segundo o Ministro da Defesa, Oscar Aguad, a Marinha da Argentina não tem equipamentos e muito menos tecnologia para retirar do cânion as peças desmembradas do barco. "Não temos meios para resgatar o submarino", disse Aguad.

A Armada Argentina informou ainda que os familiares dos tripulantes desaparecidos foram informados sobre a localização do submarino antes do anúncio oficial no Twitter. 


Não foi a primeira grande tragédia 


O desaparecimento do ARA San Juan aconteceu quase duas décadas depois do sumiço submarino Kursk. 

Em 2000, a embarcação russa afundou no mar de Barents depois de uma explosão. A bordo estavam 118 tripulantes. Vinte e três marinheiros ainda sobreviveram por dois dias e vieram a falecer por asfixia devido à falta de oxigênio. A explosão aconteceu na câmara de mísseis e os tripulantes se alojaram no compartimento número nove, localizado na proa. 

Durante 48 horas eles emitiram sinais de socorro. “Alegando segredos estratégicos”, só quatro dias depois as autoridades russas admitiram a ajuda de noruegueses e britânicos. Já era tarde demais.

 

A história do submarino argentino encontrado depois de um ano

Veja também

Olá, deixe seu comentário para A história do submarino argentino encontrado depois de um ano

Já temos 2 comentário(s). DEIXE O SEU :)
André Godinho

André Godinho

Conteúdo muito bom !!!
★★★★★DIA 18.11.18 12h19RESPONDER
Guilherme Mendes
Enviando Comentário Fechar :/
Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Obrigado, André! Venha sempre nos visitar no blog. Abraço e bom domingo

★★★★★DIA 18.11.18 12h38RESPONDER
N/A
Enviando Comentário Fechar :/
Enviando Comentário Fechar :/