A goleada está sendo considerada um dos maiores vexames da história do futebol italiano
Time leva de 20 a 0 em campeonato na Itália. Até o massagista teve que jogar

O jogo era pela Liga Pro, antiga série C do país. Em campo se enfrentaram o humilhado Pro Piacenza contra o Cuneo. O placar absurdo, o maior registrado no futebol profissional da Itália, superou um recorde que durava desde 1950, mas não foi comemorado nem pelos autores da massacre. É que eles enfrentaram um adversário que tinha apenas sete jogadores no gramado desde o primeiro minuto de bola rolando e vive uma gigantesca crise financeira.

Só para não ser eliminado da competição o Piacenza Pro entrou em campo. O time já havia sido derrotado nos últimos três compromissos por W.O. e ainda foi punido com a perda de 8 pontos na tabela. Mais uma ausência e eles seriam banidos do campeonato da terceira divisão.

 

Debandada de profissionais

 

Uma crise financeira sem precedentes atingiu em cheio o clube. Sem receber salários, quase todos os jogadores e integrantes da comissão técnica abandonaram o time no final do ano passado. Alguns chegaram a entrar em acordo com a diretoria. Outros simplesmente se mandaram. Impossibilitado de armar uma equipe, desde dezembro o Piacenza não pisava em campo.

A solução encontrada pela diretoria não podia ter sido mais desastrosa. Sete garotos das categorias de base com 19 anos ou menos foram relacionados. Até o massagista Picciarelli, de 39 anos, teve que atuar como zagueiro, mas ele não aguentou correr o jogo todo e saiu com câimbras no meio do segundo tempo.

Na lista distribuída à imprensa com os jogadores escalados o nome do jovem Nicola Cirigliano apareceu também como treinador. Segundo o jornal Gazzetta dello Sport, o oitavo jogador só pode entrar no decorrer da partida porque havia esquecido os documentos em casa. O pai dele saiu de carro às pressas para buscar a identidade do garoto.

Não foi necessário nem muito esforço para o Cuneo marcar logo 4 gols com apenas 10 minutos do primeiro tempo. Aos 20 minutos o placar chegou em 8 a 0. Ao finalizar a etapa inicial a vantagem já era de 16 gols.

Por respeito aos garotos que estavam bravamente tentando defender o Piacenza, os jogadores do Cuneo diminuíram o ritmo na etapa complementar. Mesmo assim ainda esticaram o placar em 20 a 0. O atacante árabe Hicham Kanis anotou seis tentos e entrou para a história do futebol italiano ao estabelecer um recorde de gols em uma única partida de uma liga profissional do país.

Na saída de campo o capitão do time vencedor, Fabiano Santacrocce, deu a seguinte declaração: "13 a 0 (sic) no primeiro tempo contra um time jogando com seis jogadores de 17 anos e um zagueiro central. Sem palavras ... só sinto vergonha por aqueles que tornaram tudo possível", disse o ex-jogador do Parma e Napoli.

Na imprensa o Cuneo foi alvo de algumas críticas. O site Agi qualificou de carnificina desnecessária: "Ganhar de 20 a 0, 11 contra 7, não é uma tarefa memorável, longe disso. E os meios de comunicação social são desencadeados contra Cuneo, treinador e futebolistas, porque eles colocaram em prática um futebol 'carnificina mexicana' sem razão".

 

A crise dos clubes italianos

 

Não é de hoje que vários times do país da bota andam sofrendo maus bocados com problemas financeiros. Fiorentina e Parma são bons exemplos de clubes tradicionais da Itália que tem enfrentado severas adversidades.

A Associazione Sportiva Pro Piacenza foi fundada em 1919. Durante um século o clube passou por várias fusões. A última foi em 2013.

Hoje o clube está ameaçado de total dissolução da empresa. Com problemas de salários não pagos, injunções de credores e petições de falência, o "preto e vermelho" vive a sua pior crise.

O site Agi resumiu assim a deprimente humilhação do Piacenza: "A situação financeira dos clubes de futebol italianos, especialmente em categorias menores, como a antiga Série C, é muito séria e as falências acontecem em rajadas. Mas hoje é notícia, acima de tudo, uma história humana de um punhado de garotos enviados à luta para evitar (ou talvez apenas adiar) mais um colapso financeiro".

Em todo o país houve muita indignação. O presidente da Federação Italiana de Futebol (FIGC) admite que todos deveriam ter evitado esse fato deplorável, inclusive ele. Gabriele Gravina divulgou um comunicado afirmando que "nossa responsabilidade é proteger a paixão dos torcedores e a credibilidade de nossos campeonatos é encontrar investidores saudáveis".

Sem meias palavras, o dirigente continuou: "O que assistimos neste domingo será a última piada do gênero".

No final, Gravina assumiu a sua culpa: "O que aconteceu com a equipe do Pro Piacenza é um insulto ao esporte e aos seus princípios básicos. Nesta situação surreal a FIGC tinha o dever de fazer cumprir todas as regras e exercer seu papel", disse Gabriele.

 

Um placar nunca visto e a eliminação

 

O placar de 20 a 0 imposto pelo Cuneo ao Piacenza superou em muito a maior goleada até então registrada durante uma partida na Itália. O recorde anterior pertencia ao Brescia que bateu o Ancona por 12 a 0 durante a temporada 1950/51, em uma partida pela série B.

Na lanterna da série C atual, o Piacenza tinha apenas oito pontos em 20 jogos. Mesmo tendo participado de um placar vergonhoso, os meninos que defenderam o time receberam apoio nas redes sócias. "Sarr, Di Bella, Isufi, Valente, Migliozzi, Cirigliano, Del Giudice, hoje os campeões da Itália são eles", foi uma das mensagens mais divulgadas no Twitter.

Na segunda-feira, o juiz de esportes da Lega Pro decretou a eliminação do Piacenza da competição. Pasquale Marino definiu ainda que todos os jogos do clube terão placares de derrota por 3 a 0. O rubro-negro terá que pagar também uma multa de 20 mil euros e perdeu a licença para continuar disputando competições.

O massagista que jogou de zagueiro também sofreu uma severa punição. Está proibido de trabalhar em jogos até o dia 31 de dezembro de 2019.

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Alexandre Resende Rodrigues

Alexandre Resende Rodrigues

Não podia haver jogo, como um time entra em campo sem ter jogadores inscritos na competição? Com certeza o massagista não estava inscrito, ato antidesportivo por parte de toda a federação Italiana de Futebol, sua obrigação era zelar pelo esporte e pelo nome desses garotos, que agora fazem parte dessa história de terror.
★★★★★DIA 20.02.19 03h06RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Alexandre, obrigado por ter deixado suas observações. Você tem toda razão. Por isso que o presidente da Federação falou que a culpa era dele também. A eliminação e a multa fazem parte das diversas irregularidades cometidas pelo time. Grande abraço. 

★★★★★DIA 20.02.19 10h27RESPONDER
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