A história está emocionando a torcida da Itália e transformando o técnico de futebol em um exemplo para o país
Treinador que luta para vencer a leucemia e comanda o time pela televisão

Treinador que luta para vencer a leucemia e comanda o time pela televisão

A história está emocionando a torcida da Itália e transformando o técnico de futebol em um exemplo para o país

Era para ser apenas um exame de rotina durante as férias. Antes de ir ao médico, o sérvio Sinisa Mihajlovic aproveitou o período de descanso para viajar com a família. Se sentindo muito bem, ele jogou futebol e praticou stand up paddle.

Às vésperas de iniciar a pré-temporada com o Bologna, Mihajlovic foi cumprir a agenda programada. Foi aí que a vida dele começou a mudar repentinamente.

Os exames mostraram que o aparente saudável treinador estava com uma leucemia mieloide aguda, um tipo de câncer no sangue. O tratamento precisava começar imediatamente no início de julho.

Mihajlovic foi internado no Hospital Sant'Orsola. Em um período de 41 dias ele ficou recluso, sem pode voltar para casa, enquanto passava por várias sessões de quimioterapia. Com 50 anos, o comandante do Rossoblu (apelido do time do Bologna) poderia estar sendo derrotado pelo maior adversário que enfrentou na vida.

"Respeito a doença, mas vou encará-la com o peito estufado e olhando nos olhos, como sempre fiz", declarou na época.

No dia da apresentação do elenco para o início dos treinos da pré-temporada, Miha, como é carinhosamente chamado pelos torcedores, não se encontrava com o grupo. A primeira justificativa dada pela diretoria era que o treinador estaria com uma febre e que retornaria em breve.

No terceiro dia, finalmente, todos souberam da verdade. Os dirigentes reuniram em uma sala jogadores, comissão técnica e funcionários. Finalmente todos puderam ver e saber o que estava acontecendo. Através da tela de um computador preparado para uma videoconferência, eles ouviram as explicações. Do outro lado da transmissão quem falava era o comandante.

"Quero contar a vocês antes de todos porque viraram parte de minha família nesses últimos meses. Estou com uma grave doença, mas vamos atacar e vencer isso juntos", disse Mihajlovic antes de cair em choro.

"Ali não teve jeito, éramos mais ou menos 40 pessoas chorando. Ele sempre aparentou ser um homem muito forte, não dava para acreditar", recorda o goleiro Angelo da Costa.

A forte relação do treinador com os jogadores tinha sido construída de uma forma muito intensa nos últimos meses. No dia 28 de janeiro, quando o Bologna estava seriamente ameaçado de rebaixamento no Campeonato Italiano, a direção do clube convidou o técnico sérvio para substituir Filippo Inzaghi, demitido depois da goleada por 4 a 0 para o Frosinone.

O contrato de Mihajlovic era de risco, tinha apenas seis meses de duração. Havia a possibilidade de o compromisso ser renovado por mais um ano, mas o clube impôs uma condição: só se o novo treinador salvasse o Rossoblu do descenso.

Apesar de ser um jogador com uma bela carreira, (foi campeão italiano com o time da Lazio em 2011 e considerado um exímio cobrador de falta), Miha ainda não havia feito nenhum trabalho empolgante como técnico. A primeira experiência dele foi também no Bologna na temporada 2008/2009, e durou muito pouco. Em 22 jogos o treinador conseguiu apenas quatro vitórias.

Depois, passou pelo Catania, Fiorentina, seleção da Sérvia, Sampdoria, Milan, Torino e Sporting Lisboa. A volta ao Bologna foi ainda mais desafiadora. Sinisa Mihajlovic reencontrou o time na 18ª colocação, com 14 pontos. Há quatro meses a equipe não vencia uma partida pelo Calcio. A última tinha sido no dia 30 de setembro de 2018, diante da Udinese.

O "milagre" que a torcida local esperava aconteceu. Com uma recuperação fantástica, o Rossoblu terminou na décima colocação e se manteve na divisão de elite. Em 17 jogos com Mihajlovic, o Bologna venceu nove. Já na estreia do novo treinador, o time conseguiu um expressivo resultado ao bater a Inter, em Milão, por um a zero.

Ao término da competição, o técnico afirmou que "a salvação foi um milagre".

 

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Foi nesse contexto que Miha se tornou um "herói" e saiu de férias. A notícia da doença dele abalou não apenas os jogadores, a torcida sentiu como se estivesse acontecendo algo com alguém da própria família italiana.

"O que ele fez aqui foi algo incrível, logo caiu nas graças de todo mundo. A torcida se apaixonou por ele", lembra o goleiro Costa.

Durante a internação de Mihajlovic, os torcedores estiverem sempre solidários. Uma demonstração de apoio ao trabalho do técnico foi o aumento do número de sócios e de venda de carnês para assistir aos jogos da temporada.

O clube também não abriu mão de seu salvador. Para que Miha pudesse continuar treinando a equipe, a direção montou um sofisticado esquema de câmeras e monitores na beira do campo. Do leito do hospital, Mihajlovic acompanhava as atividades e corrigia as falhas do time através de um aparelho de tv. A comunicação com os assistentes era feita por celular.

"Não podemos fazer nada de errado que ele já fala. Ele liga e chama algum jogador individualmente para conversa", explica Costa.

Assim o Bologna foi sendo preparado para a temporada 2019/2020. No dia da estreia no certame italiano, o técnico recebeu uma permissão especial dos médicos para ir ao estádio. Depois de 45 dias internado, Mihajlovic pode viajar 145 kms para se encontrar com seus comandados em Verona.

Usando uma máscara, doze quilos mais magro, sem cabelo e com um boné, Miha chegou ao estádio do time local para outro momento emocionante. O treinador estava lá, do lado de seus guerreiros, para o início de mais um campeonato que representa muito para ele.

Mihajlovic só recebeu autorização dos médicos para retirar a máscara nos momentos em que estivesse à beira do campo. O esforço foi recompensado. O Bologna trouxe um ponto do difícil confronto contra o Verona.

Cinco dias depois, o Rossoblu jogou em casa contra o Spal e Miha, outra vez, pode trabalhar. A torcida fez uma homenagem tocante ao treinador. Ele foi recebido por milhares de pessoas de pé, que o aplaudiram demoradamente quando a equipe entrou em campo no Estádio Renato Dall'Ara.

 

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Várias faixas foram erguidas na arquibancada. Uma delas dizia em italiano "Combattiamo ogni battaglia per Sinisa e per la maglia". Em uma tradução mais próxima seria "Vamos lutar essa batalha por Sinisa e pela camisa".

O Bologna saiu de campo com uma vitória por um a zero e Mihajlovic voltou para o hospital para mais um longo período de tratamento. O sérvio tinha sido avisado pelos médicos que ele ainda precisaria passar por outras sessões de quimioterapia que não o deixariam bem o suficiente para se afastar do ambulatório.

Miha ficou novamente longe dos campos, mas não do calor de seus jogadores. Certo dia, depois de uma vitória do Rossoblu, o time seguiu para o centro médico. Embaixo da janela do quarto do treinador, os jogadores cantaram o nome dele enquanto Mihajlovic passava por uma quimioterapia.

"Existe uma ligação muito forte entre nós e o treinador. Não lutamos mais simplesmente pela Série A ou por uma classificação a uma competição europeia, mas por ele", comentou o atacante Nicola Sansone.

Contra o Brescia, Roma, Genoa e Udinese o treinador não pôde estar nos estádios. No primeiro jogo, o Bologna perdia por dois a zero. No intervalo ele passou instruções para os jogadores através do sistema de comunicação. Na volta a campo seu time virou o placar e venceu por quatro a três.

Há pouco mais de uma semana, Miha pediu aos médicos para comparecer ao encontro entre Bologna e Lazio, depois que exames de sangue mostraram melhoras. O técnico alegou que se tratava de um jogo com uma importância pessoal, afinal, estariam, frente a frente, os clubes que marcaram a sua carreira.

Quando saiu a notícia que Mihajlovic estaria na partida, os torcedores dos dois times organizaram uma peregrinação à igreja de San Luca, em uma demonstração de apoio ao ídolo e a todos que sofrem da doença. Eles vestiam camisetas com o nome de Mihajlovic.

O sérvio apareceu em campo antes do jogo para agradecer aos torcedores e foi ovacionado por uma grande plateia.

Na linha lateral do Estádio Renato Dall'Ara, o técnico comandou novamente sua equipe, desta vez usando uma máscara. Mihajlovic esperava ainda que sua presença ajudasse a inspirar o Bolonha no meio da tabela depois de perder na rodada anterior para a Udinese. O encontro não teve vencedor. O placar fechou em 2 a 2.

Dois dias depois a torcida do Rossoblu voltou ao estádio para uma partida amistosa entre veteranos de Bologna e Real Madrid. O encontro era para comemorar os 110 anos do clube italiano.

Sinisa Mihajlovic não esteve presente, mas enviou uma mensagem emocionante que foi exibida no telão.

"Tenho que me desculpar por não poder estar aí com vocês, mas só ontem saí do hospital. Gostaria de estar aí, mas também queria muito ir para casa e estar com a minha mulher e com as minhas filhas. Creio que me compreendem", disse Mihajlovic.

O técnico agradeceu também o apoio que tem recebido, e otimista disse que vai vencer a doença. "Tenho a certeza que tudo está correndo bem e tenho a certeza de que sairei vencedor. Vencerei também graças a vocês e ao amor da minha família", finalizou.

 

 

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