O motivo seria o uniforme. Por usar um short a árbitra mostrava as pernas, o que não é permitido pelo país islâmico
TV iraniana se nega a mostrar jogo do Campeonato Alemão por mulher apitar a partida

Não foi a primeira vez que o canal público de televisão IRIB ameaçou não transmitir uma partida da Bundesliga. Em maio do ano passado, um jogo apitado pela árbitra Bibiana Steinhaus por muito pouco não deixou de ir ao ar no país asiático por ela se vestir de "maneira liberal", o que é inaceitável pelas inflexiveis leis islamicas do Irã. Na última sexta-feira não teve jeito. A emissora cancelou a transmissão Bayern de Munique x Augsburg. Por lá, mulher e futebol vivem um caso de amor cheio de preconceitos.

 

Dessa vez não passou

 

O jogo da liga alemã foi mostrado em 208 países mundo afora. Era para o torcedor iraniano também ter acompanhado a partida, mas uma decisão de suspender a exibição foi tomada pela televisão estatal em cima da hora, quando eles perceberam que novamente Bibiana Steinhaus iria apitar.

Em 2018, outro jogo do campeonato alemão já tinha sido transmitida com a mesma árbitra. Em vão a tv iraniana tentou censurar os momentos em que ela aparecia exibindo imagens aleatórias do público.

Dessa vez a decisão dos responsáveis pelo canal foi mais radical. A opção deles foi de não mostrar o confronto.

Os jornais alemães repercutiram a medida radical da emissora com base nas estritas leis islâmicas do país, que não permitem imagens de mulheres usando roupas que mostrem partes do corpo.

Correspondente no Irã do canal público alemão ARD, a jornalista Natalie Amiri escreveu na conta dela no Twitter: "A partida foi cancelada em cima de hora! E de quem é a culpa de novo: da Bibi, é claro. Bibiana Steinhaus é uma mulher e usa shorts, algo que não pode ser visto na TV estatal iraniana".

Na Europa o episódio teve grande repercussão. Na Itália a agência Agi escreveu: "É a enésima batalha perdida pelo progresso da liberdade em alguns países asiáticos e africanos. É a confirmação de um fechamento obtuso e ignorante. É um impulso novo e mais imperioso para vencer a guerra".

A versão da censura foi comentada também pela mídia iraniana, que confirmou que a empresa estatal de televisão suspendeu a transmissão por causa do short da juíza.

 

TV iraniana se nega a mostrar jogo do Campeonato Alemão por mulher apitar a partida

 

A policial que fez história com o apito

 

A árbitra Bibiana Steinhaus tem 39 anos. Em setembro de 2017, ela se tornou a primeira mulher a apitar uma partida da principal divisão do futebol alemão. O jogo foi no Estádio Olímpico de Berlim, entre as equipes do Werder Bremen e Hertha Berlin.

Antes de se dedicar ao apito, Steinhaus atuou como zagueira em times pequenos da liga alemã, mas a experiência como jogadora acabou rápido. Influenciada pelo pai, que também foi juiz de futebol, ela prestou concurso para arbitragem.

"O maior desafio em arbitrar é controlar 22 jogadores completamente diferentes, personalidades completamente diferentes. Isso em um espaço de alguns metros quadrados, com vários espectadores no estádio e em casa, sob o 'microscópio' da tv e da mídia", define Steinhaus.

Em 2012, Bibi apitou a final feminina nas Olimpíadas, entre Japão e Estados Unidos.

No atual campeonato da primeira divisão da Bundesliga, ela foi escalada para trabalhar em quatro jogos, mostrou 12 cartões amarelos e não expulsou ninguém.

Se você quer saber como foi o jogo, o Bayern de Munique venceu por 3 a 2 e se manteve na segunda posição, com 48 pontos. Augsburg está em 15º lugar com a derrota. O líder é o Borússia Dortmund, com 50 pontos.

Bibiana também é policial.

 

Futebol proibido para mulheres

 

Steinhaus não é a primeira a sofrer com a discriminação no Irã. Pessoas do sexo feminino são proibidas de frequentar estádios no país desde a revolução islâmica de 1979. Em março do ano passado, trinta mulheres foram presas vestidas de homem em Teerã quando tentavam assistir à partida entre os times locais Esteqlal e Persepolis.

O presidente da FIFA, Gianni Infantino, acompanhou o jogo dos camarotes como convidado de honra do governo iraniano. No encontro com o presidente do país, Hassan Rouhani, Infantino se mostrou preocupado com a discriminação contra as mulheres.

A insatisfação da FIFA parecia ter surtido efeito. Em outubro, previamente registradas, centenas de torcedoras tiveram permissão para ver o amistoso da seleção iraniana contra a Bolívia, também em Teerã. Os donos da casa venceram por 2 a 1.

Mas no dia seguinte ao jogo, o procurador-geral, Mohamed Jafar Montazeri, disse que não daria mais nenhuma autorização para que as mulheres voltassem as arquibancadas.

"Não concordo com a presença destas mulheres ontem no estádio Azadi. Somos um Estado islâmico, somos muçulmanos", disse Montazeri.

O procurador-geral foi mais além para justificar a posição dele. "Que uma mulher vá ao estádio e encontre homens quase pelados com roupas de esporte, isso leva ao pecado" argumentou Mohamed.

Mas atualmente a proibição é muito contestada dentro do próprio sistema político iraniano. Até o presidente Hassan Rohani já defendeu diversas vezes a liberação feminina nos estádios. A mudança na lei, no entanto, esbarra na oposição ultraconservadora do governo.

Inconformados os torcedores iranianos enviaram uma petição a FIFA com duzentas e dez mil assinaturas pedindo uma interferência da entidade: "Em nome das mulheres iranianas que amam o futebol e só querem assistir aos jogos para apoiar as equipes favoritas que pedimos para levar todas as ações disciplinares contra a Federação Iraniana de Futebol para defender nossos direitos".

No documento eles citam o Artigo 4 do Estatuto da FIFA: "Discriminação de todos os tipos contra um país, uma única pessoa ou um grupo de pessoas devido a raça, cor da pele, origem étnica, nacional ou social, gênero, deficiência, linguagem, religião, opinião política ou qualquer outra razão é estritamente proibida e punível com suspensão ou expulsão".

O Conselho de Direitos Humanos da FIFA "comprou" a ideia e recomendou que a Federação Internacional de Futebol seja dura com o Irã em relação à proibição de mulheres assistirem as partidas nos locais em que são realizadas. O grupo solicita que a entidade determine um prazo para que os asiáticos mudem definitivamente suas regras, caso contrário sejam punidos.

Se a FIFA levar adiante o pedido do Conselho e o Irã resistir em cumprir a decisão da liberação, a Federação do país pode ser proibida de disputar competições oficiais, como a Copa do Mundo.

Em novembro, um novo passo favorável foi dado. Mulheres registradas com antecedência puderam ver o jogo entre Persepolis, clube mais popular do país, contra o Kashima Antlers, na final da Liga dos Campeões da Ásia.

* as fotos do texto são de arquivo

 

 

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