No Japão o cruzamento de cinco ruas é um alvoroço só. Verdadeiras multidões partem de todas as calçadas. No meio desse povaréu tem uma história emocionante
Já pensou em atravessar uma esquina com mais três mil pessoas?

Para nós, brasileiros, parece fácil dizer qual é a esquina mais famosa que já ouvimos falar. A maioria deve dizer que fica na capital paulista e virou música na letra de um baiano famoso.

Caetano Veloso cantou em Sampa:

Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e Av. São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi

A música foi composta em 1978 para um programa de TV no aniversário de São Paulo. Isso foi há exatamente 40 anos e se tornou um símbolo da maior cidade do Brasil.

O cruzamento das avenidas Ipiranga e São João era próximo à casa de Caetano e serviu de inspiração na hora de compor. O curioso é que Caetano escreveu a letra no Rio de Janeiro.

Já pensou em atravessar uma esquina com mais três mil pessoas?

Já a esquina mais cantada pelos mineiros tem uma história bem mais comprida. O início foi em 1963, quando Milton Nascimento trocou a simpática Três Pontas pela capital do estado. Em BH ele conheceu primeiro os irmãos Borges, com quem fez algumas músicas. Depois se reuniram a patota Beto Guedes e Toninho Horta. O grupo ficou maior ainda com as chegadas de Flávio Venturini, Vermelho e Tavinho Moura.

Um dia, nas esquina das ruas Divinópolis com Paraisópolis, no bairro de Santa Teresa, Milton e os irmãos Borges decretaram a criação do Clube da Esquina. A idéia era falar sobre música, política, cultura e amizade numa prosa regada a cachacinha da terra. Consta que o nome "Clube da Esquina" nasceu de uma sugestão de Márcio Borges. Ele conta que a mãe dele, Dona Maria, ao ser perguntada por onde andavam os filhos dizia: "Claro que lá na esquina, cantando e tocando violão".

Com o Clube da Esquina nasceu pouco tempo depois a primeira música que tem o mesmo nome do encontro dos amigos. Mas foi o "Clube da Esquina II" que bombou. A gravação é de 1978 e tem uma letra fantástica, apesar de não falar explicitamente do ponto de encontro da rapaziada:

E o rio de asfalto e gente
Entorna pelas ladeiras
Entope o meio-fio
Esquina mais de um milhão
Quero ver então a gente, gente
Gente, gente, gente, gente, gente
E lá se vai....

Já pensou em atravessar uma esquina com mais três mil pessoas?

Até hoje a esquina dos mineiros é um lugar bem pacato. Já o cruzamento dos paulistanos tem um movimento intenso dia e noite.

Quem passa pela Ipiranga com São João se impressiona, mas nem de longe dá para afirmar que se trata de uma das esquinas mais frequentadas do mundo.

Tem um cruzamento no Japão que, literalmente, é de tirar o fôlego. Nos horários de pico, quando os sinais fecham, três mil pessoas saem em galope pisando nas faixas de pedrestes até alcançar a calçada do outro lado.

Já pensou em atravessar uma esquina com mais três mil pessoas?

Os mineiros do Clube da Esquina diriam que isso é um "trem de doido", e é mesmo. A tal muvuca fica no bairro de Shibuya, em Tóquio. São cinco ruas que se encontram formando um pentágono. A maioria dos pedestres que passa pelo local acabou de desembarcar de trens e metrôs, ou está seguindo rumo a estação que fica ao lado desse pandemônio.

Para não trombar com ninguém nesse corre corre os japoneses tem uma receita que para eles é infalível. O segredo é seguir reto, sem fazer zig zag. Lá dá certo porque se tem um povo que conhece bem a palavra disciplina é o asiático.

Shibuya é um dos 23 bairros da metrópole japonesa. Esse terreno de Tóquio é conhecido também pela excentricidade das pessoas que circulam na área. Quanto mais exótico, melhor.

No bairro japonês, ser diferente é o que importa. De cabelos de todas as cores e cortes a óculos estilosos, vale de tudo para chamar a atenção.

As meninas são as mais arrojadas na escolha do visual. Usam roupas sensuais, lentes de contato rosa, unhas cheias de apliques e, invariavelmente, saltos bem altos. São conhecidas como as Shibuya-girls, ou as “garotas de Shibuya.

Já pensou em atravessar uma esquina com mais três mil pessoas?

Tem ainda uma história bem legal que eternizou o bairro. Hachiko era um cão da raça Akita que pertencia a um professor que morava em Shibuya. Todos os dias o cachorro seguia até a estação esperando que seu dono embarcasse. Mais tarde o animalzinho retornava para aguardar a chegada do professor. Um dia o mestre sofreu um AVC e morreu. Hachiko precisou ser doado a uma nova família, mas o bichinho não aceitou os novos donos e todos os dias continuava indo a estação esperar pelo professor. O cachorro acabou "adotado" pelas pessoas que transitavam em Shibuya.

Hachiko morreu quase dez anos depois do professor. Nesse período, todos os dias ele continuou aguardando pelo seu dono. Em 1934, uma estátua de bronze de Hachiko foi esculpida e erguida em frente à estação de Shibuya, com um poema gravado em um cartaz intitulado “Linhas para um cão leal”.

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A história virou um filme também com uma versão em japonês e uma americana. O astro Richard Gere interpretou o papel do professor. No Brasil a película foi exibida com o nome de “Sempre ao seu lado”.

Nem todas as esquinas são famosas e celebradas, mas cada cruzamento desses tem sempre boas histórias para contar. Como ensinou Caetano, apesar "da dura poesia concreta de tuas esquinas".

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